Redação do CLC
Por que Horácio ainda é essencial para escritores?
Escrever bem não depende apenas de inspiração — exige também técnica e refinamento. Por isso, desde a Antiguidade, os escritores buscam diretrizes para aprimorar suas obras e conquistar leitores, já que a técnica da escrita não é algo simplesmente inato, mas sim algo que pode ser conquistado depois de estudo, esforço e muita prática. Um dos textos mais influentes nesse sentido é a Ars Poetica (Arte Poética), escrita pelo poeta romano Horácio no século I a.C.
Mesmo após dois mil anos, essa obra continua sendo um guia valioso para escritores modernos, abordando aspectos como coerência, verossimilhança, equilíbrio entre ensino e entretenimento, escolha das palavras e a importância da revisão.
Neste artigo, exploramos a relevância da Arte Poética e os ensinamentos de Horácio que podem transformar a forma como você escreve, seja ficção, poesia, roteiros ou qualquer outro gênero.
A Arte Poética e seu impacto na literatura
Horácio (65–8 a.C.) foi um dos grandes poetas da Roma Antiga e mestre na arte de versificar. Seu tratado Ars Poetica é uma epístola em versos endereçada aos Pisões, uma família da elite romana. E embora não siga a estrutura rígida de um manual, a obra traz reflexões valiosas sobre poesia, desafios da escrita e os elementos que tornam um texto bem construído.
Ao longo dos séculos, a Arte Poética influenciou profundamente a literatura. Durante a Idade Média e o Renascimento, seus princípios ajudaram a moldar a estética neoclássica, que valorizava clareza, ordem e harmonia. No século XVIII, escritores como Boileau, Pope e Goethe se inspiraram em suas lições para construir suas próprias obras e teorias literárias.
Mas, diante de tudo isso, podemos nos perguntar: o que torna a obra tão relevante hoje? Simples: Horácio vai direto ao ponto. Seus conselhos são práticos e realistas, evitando teorizações abstratas. Por isso, muitos de seus ensinamentos continuam valiosos para escritores contemporâneos — de romancistas a roteiristas.
A seguir, exploramos os principais princípios de Horácio e o que ele tem a nos ensinar sobre a escrita criativa.
1. Como escrever com coerência: “Evite criar um monstro literário”
Logo no início da Arte Poética, Horácio usa uma metáfora marcante:
“Se um pintor quisesse unir a cabeça de um homem ao pescoço de um cavalo, acrescentando penas multicoloridas a membros de todas as espécies, o que resultaria não poderia ser chamado de arte, mas sim de um monstro.”1
O recado é claro: uma obra sem coerência, que mistura elementos de forma caótica, perde sua força e se torna confusa. Muitos escritores iniciantes caem nessa armadilha ao tentar misturar estilos, gêneros ou ideias sem uma estrutura bem definida.
Como aplicar isso na escrita?
- Defina um tema central: Antes de começar, pergunte-se: qual a essência da minha história? Isso evita desvios desnecessários.
- Mantenha um tom consistente: Se a história começa como um drama realista, não a transforme em uma comédia absurda sem motivo.
- Use subtramas com moderação: Elas enriquecem a narrativa, mas não devem desviar do foco principal.
2. Como construir personagens realistas: “Se quer comoção, sinta primeiro”
Horácio enfatiza a importância de personagens autênticos e emocionantes:
“Se queres que eu chore, chora primeiro. Se desejas me comover, deves primeiro sentir a emoção em teu próprio coração.”2
Isso significa que, para criar personagens verossímeis, o escritor deve entender e sentir as emoções que deseja transmitir.
Dicas práticas:
- Dê motivações reais aos personagens: O que os move? O que temem? Personagens convincentes têm desejos e conflitos internos.
- Evite estereótipos: Ninguém é 100% bom ou mau. Explore nuances e contradições humanas.
- Mostre, não apenas conte: Em vez de dizer que um personagem está triste, descreva suas expressões, gestos e ações.
3. Como escrever com clareza: “Não se perca em palavras vazias”
Horácio alerta sobre o perigo do excesso de palavras e do rebuscamento desnecessário:
“O uso estabelecerá o vocábulo recém-nascido ou rejeitará o que já envelheceu.”3
A mensagem é simples: a linguagem deve ser clara, direta e adequada ao contexto. Palavras difíceis não tornam um texto melhor — pelo contrário, podem afastar o leitor.
Como evitar isso?
- Prefira simplicidade. Um texto direto é mais poderoso do que um cheio de floreios.
- Revise para eliminar excessos. Pergunte-se: essa frase é realmente necessária? Se não for, corte-a.
- Evite jargões e tecnicismos desnecessários. A menos que sejam essenciais, escolha termos acessíveis.
4. O equilíbrio entre ensinar e entreter: “Seja útil e agradável”
Horácio afirma que a literatura deve equilibrar aprendizado e prazer:
“Os poetas querem ou ser úteis ou deleitar, ou falar a um tempo o útil e o agradável.”4
Isso significa que um bom texto deve não apenas entreter, mas também oferecer alguma reflexão ao leitor sobre a condição humana, seja ela mais profunda ou mais leve. Por isso, é essencial pensar no texto literário como uma expressão dos dramas e anseios humanos.
Como aplicar esse princípio?
- Integre reflexões naturalmente na narrativa: Lições devem surgir organicamente, sem parecerem forçadas.
- Estimule questionamentos: Um bom texto não precisa dar respostas diretas — pode provocar reflexões no leitor.
- Use personagens e situações para explorar ideias: Em vez de dizer algo explicitamente, deixe a história sugerir.
5. O poder da revisão: “Apague sem medo”
Por fim, Horácio enfatiza a importância da reescrita:
“Sê lento ao escrever e ainda mais lento ao revisar. Apaga muitas coisas que escreveste.”5
A primeira versão de um texto nunca é a definitiva. A qualidade vem do refinamento.
Dicas de revisão:
- Deixe o texto “descansar”: Relê-lo após alguns dias ajuda a perceber erros e excessos.
- Peça feedback: Um olhar externo de alguém experiente pode revelar problemas que você não notou.
- Reescreva sem pressa. A busca pela perfeição exige tempo e paciência.
Pegue papel e caneta (ou o computador) e comece agora!
A escrita exige mais do que inspiração: requer técnica, clareza e dedicação. Siga essas lições e pratique constantemente. Afinal, a melhor maneira de aprender a escrever bem é… escrevendo!
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