Martín Fierro: o maior clássico argentino

Seu canto solitário ecoa até hoje como uma afirmação de quem somos, de onde viemos — e, talvez, para onde desejamos ir.

Por Thaís Nicolini Díaz1

Martín Fierro não é apenas um poema épico – ele é um marco na literatura latino-americana e uma das obras mais emblemáticas da identidade argentina. Publicado em duas partes por José Hernández – El gaucho Martín Fierro (1872) e La vuelta de Martín Fierro (1879) –, esse longo poema narra a história de um gaúcho que sofre injustiças e se rebela contra o sistema opressor da época.

A obra transcende seu tempo ao abordar temas universais como liberdade, justiça, identidade e resistência. Por isso, o impacto de Martín Fierro foi tão profundo que transformou a forma como o gaúcho era visto em sua época, fazendo com que saísse de figura marginal para um herói nacional. Esse é o poder da literatura! Até hoje, é amplamente lido e estudado, e segue inspirando diversas manifestações culturais. 

Neste artigo, você conhecerá a riqueza literária do poema, analisando seu contexto histórico, principais temas, influência na literatura e seu impacto cultural, tanto na Argentina e no Brasil quanto no mundo.

Entenda o contexto histórico de Martín Fierro

Para compreender a importância de Martín Fierro, é essencial analisar o momento histórico em que foi escrito. O poema não surge apenas como uma obra literária, mas como uma resposta às transformações sociais e políticas que estavam remodelando a Argentina no século XIX. José Hernández, além de escritor, era um jornalista e político comprometido com a defesa dos direitos dos gaúchos, uma classe que, naquela época, se via cada vez mais marginalizada pelo novo projeto de nação que se consolidava.

A Argentina passava por um período de reestruturação, tentando definir sua identidade como país independente após as guerras de emancipação contra a Espanha e os conflitos internos entre unitários e federalistas. O governo central, sob influência do liberalismo europeu, buscava modernizar a nação, promovendo a urbanização e a expansão econômica. No entanto, essa modernização tinha um custo: o modo de vida tradicional do gaúcho estava sendo suprimido. Considerados homens rudes, indisciplinados e pouco produtivos para o projeto de um país progressista, os gaúchos passaram a ser perseguidos e forçados a se adaptar a um sistema que os excluía. Muitos eram recrutados à força para servir no exército ou empurrados para as fronteiras, onde enfrentavam não apenas condições de vida extremamente duras, mas também os conflitos com os indígenas, utilizados como justificativa para sua exploração.

José Hernández escreveu Martín Fierro como um protesto contra essas injustiças, dando voz a uma classe que até então era desprezada. Seu poema denuncia as arbitrariedades do governo, que utilizava o recrutamento forçado como instrumento de controle social, retirando os gaúchos de suas terras e de seu estilo de vida independente. O próprio Fierro encarna essa resistência: um homem que deseja apenas viver livremente, mas que se vê esmagado por um sistema que o trata como um criminoso. Hernández, ao criar essa narrativa, não apenas denuncia a repressão do Estado, mas também transforma o gaúcho em um símbolo da identidade argentina, algo que poucos escritores conseguiram fazer com tanta força e impacto.

A construção de um mito nacional

Embora Martín Fierro tenha sido inicialmente escrito como um poema de protesto, sua importância logo ultrapassou as questões políticas do momento. Hernández não se limitou a relatar as dificuldades dos gaúchos – ele mergulhou profundamente na psicologia e na alma desse homem marginalizado, criando um personagem universal. A angústia de Fierro, seu senso de justiça e sua luta por dignidade ressoaram não apenas entre os próprios gaúchos, mas também nas camadas mais letradas da sociedade.

A recepção da obra foi imediata e estrondosa. Escrito no estilo da payada, um gênero poético típico da região do Prata, Martín Fierro foi capaz de atingir um público amplo, que se identificou com seus versos ritmados e com a oralidade que remetia às tradições populares. O livro começou circulando entre os próprios gaúchos e pessoas simples do interior, que se reconheceram na história do protagonista. No entanto, com o tempo, sua força literária conquistou também a elite intelectual do país, transformando-se no maior clássico da literatura argentina.

O poema ajudou a consolidar a chamada literatura gauchesca, um movimento literário que resgatava e exaltava as tradições do homem do campo. Mais do que isso, Martín Fierro contribuiu para a construção do imaginário nacional argentino, estabelecendo o gaúcho como um herói cultural, um arquétipo de resistência e bravura. Seu impacto foi tão profundo que ultrapassou fronteiras, influenciando também a literatura do Rio Grande do Sul, onde o gaúcho é igualmente uma figura central na identidade cultural.

A marginalização do gaúcho nas palavras de Fierro

A condição de outsider do gaúcho, tema central da obra, já se expressa nos versos de abertura do poema, onde Fierro revela sua solidão e seu sofrimento:

“Aquí me pongo a cantar
Al compás de la vihuela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena extraordinaria
Como el ave solitaria
Con el cantar se consuela.”
2

Na tradução de Carlos Nejar, publicada pelo Clube:

“Aqui me ponho a cantar
ao compasso da viola,
que o homem que a desenrola
em tristeza extraordinária
é tal ave solitária
que no cantar se consola.”
3

Esses versos inaugurais estabelecem o tom melancólico que acompanhará toda a jornada de Fierro. Sua música não é apenas entretenimento, mas um meio de expressar sua dor e sua indignação. Assim como a ave solitária que canta para aliviar sua tristeza, Fierro recorre às palavras para encontrar algum consolo em meio à injustiça que sofre.

Ao longo do poema, essa solidão se manifesta de diversas formas: Fierro perde sua família, é perseguido pelo governo, precisa matar para sobreviver e, no fim, não encontra um lugar onde possa viver em paz. Essa trajetória reflete a realidade de muitos gaúchos da época, que foram forçados a vagar sem destino, expulsos de suas terras e condenados à marginalização.

Dessa forma, Martín Fierro não é apenas um relato histórico ou um protesto social – é um épico que captura a essência de um povo e de um momento crucial na formação da Argentina. Hernández, ao transformar um homem comum em símbolo de resistência e identidade, criou uma das obras mais marcantes da literatura mundial.

A história de Martín Fierro

Esse poema épico é dividido em duas partes, publicadas em datas diferentes:

  • El gaucho Martín Fierro (1872): Narra a vida de Fierro, um homem livre que é obrigado a se alistar no exército para defender a fronteira contra os indígenas. Durante seu serviço, ele sofre abusos, decide desertar e se torna um fora da lei, vivendo como exilado nos pampas.
  • La vuelta de Martín Fierro (1879): O protagonista retorna e reflete sobre sua trajetória. Diferente da primeira parte, que apresenta um tom mais rebelde contra o sistema, nessa segunda obra há um tom mais conciliador, e Fierro aconselha seus filhos a seguirem um caminho mais pacífico.

Tanto o contexto histórico argentino quanto os estudos literários já realizados explicam a mudança de tom entre as duas partes como um reflexo do próprio amadurecimento do autor, mas também como algo condizente com as transformações da Argentina no período pós-Guerra do Paraguai.

Depois dessa sangrenta guerra, e dos inúmeros conflitos vividos na Argentina da época, Hernández traz um tom mais conciliador para sua segunda obra, que parece se alinhar também ao amadurecimento do próprio personagem.

Afinal, após ficar muito tempo como um foragido, vivendo em conflitos e errando pelos pampas, Martín Fierro começa a cair em si e a buscar uma via mais apaziguadora, principalmente para que seus filhos não sigam o mesmo caminho errante e fora da lei que havia sido o seu até aquele momento.

O desenvolvimento da história, nas duas partes, mergulha-nos no complexo mundo interior de Martín Fierro. A perda da família, o luto, o sofrimento causado ao retornar e não encontrar mais sua família e sua casa – tudo isso desperta o conflito interno que oscila entre a vingança e a resignação.

A riqueza literária de Martín Fierro

Linguagem e Estilo

José Hernández utilizou a linguagem coloquial da época e repleta de expressões regionais, criando uma obra profundamente autêntica. Essa escolha, é claro, causou uma imediata identificação da obra com as classes mais populares, nas quais o livro teve um sucesso estrondoso.

Em relação à estrutura, estamos falando de um poema escrito com métrica predominante em sextilha octossilábica, muito comum na tradição oral dos cantores populares. Em outras palavras, trata-se de estrofes de seis versos, todos escritos em oito sílabas poéticas no espanhol. Em português, a contagem silábica é um pouco diferente: trata-se do nosso verso de sete sílabas, mais conhecido como redondilha maior, e abundantemente usado na literatura brasileira – de forma especial no cordel nordestino e na payada gaúcha. 

Borges, em seu ensaio El escritor argentino y la tradición, afirmou que Hernández conseguiu criar um poema que é simultaneamente popular e literário:

“Martín Fierro no es solamente un poema nacional; es un poema que trasciende su tiempo y lugar, una epopeya de la marginalidad.”4

Jorge Luis Borges

A capacidade de Hernández de unir oralidade e complexidade literária fez com que Martín Fierro se tornasse uma das maiores obras da literatura hispano-americana.

Quais são os principais temas presentes na obra?

Quando pensamos em Martín Fierro, podemos enumerar uma série de temáticas que permeiam sua história e dialogam diretamente com nossos conflitos atuais:

Liberdade vs. Repressão

Um dos aspectos centrais da narrativa é o embate entre a liberdade do homem do campo e a repressão imposta pelo governo. Martín Fierro encarna a figura do gaúcho livre, acostumado à vida errante e autônoma, que se vê perseguido e forçado a servir no exército, onde sofre abusos e privações. A obra denuncia o alistamento compulsório, prática comum no século XIX, em que homens do campo eram capturados e enviados à fronteira para lutar contra os indígenas. Esse conflito entre o desejo de independência e a opressão do Estado ressoa até hoje em discussões sobre direitos individuais e a relação entre o povo e o poder.

No poema, essa resistência à autoridade se manifesta na fuga de Fierro e na sua recusa em aceitar as normas impostas. Ele se torna um símbolo da rebeldia contra um sistema injusto, um tema que pode ser comparado a outras figuras da literatura, como Robin Hood ou até mesmo o Prometeu da mitologia grega, que desafia os deuses para garantir a liberdade dos homens. Assim, Martín Fierro não apenas narra a luta de um indivíduo, mas também questiona o próprio papel do Estado e de suas leis.

Justiça e injustiça

A injustiça perpassa toda a trajetória de Fierro. Desde o início, ele é vítima da arbitrariedade das autoridades, que o arrancam de sua casa para servir no exército, levando-o a perder tudo o que possuía. A obra denuncia um sistema onde os pobres são explorados, enquanto os poderosos impõem suas regras sem enfrentar consequências. Esse tema aproxima Martín Fierro de outras obras que abordam a desigualdade e a corrupção do poder, como Os Miseráveis, de Victor Hugo, que também coloca em questão a forma como a justiça trata os desfavorecidos.

Além disso, Fierro, ao longo de sua jornada, também comete atos violentos que podem ser questionados moralmente. Ele mata, enfrenta inimigos e desafia as autoridades, mas suas ações são sempre uma resposta ao sofrimento que lhe foi imposto. Essa ambiguidade moral torna o personagem mais complexo, pois ele não é apenas uma vítima, mas também alguém que busca a justiça por suas próprias mãos. Dessa forma, o poema convida à reflexão sobre o que realmente significa ser justo em um mundo onde as leis nem sempre são aplicadas de maneira equitativa.

Identidade nacional

Poucas obras conseguiram captar tão bem o espírito de um povo quanto Martín Fierro. O poema transformou a figura do gaúcho em um verdadeiro ícone da identidade argentina, representando não apenas os homens do campo, mas também valores como coragem, independência e resistência. A literatura nacional muitas vezes busca um símbolo para expressar o caráter de uma nação, assim como Dom Quixote personifica o idealismo espanhol ou Huckleberry Finn encarna a liberdade e o espírito aventureiro dos Estados Unidos.

O próprio José Hernández escreveu o poema com um propósito claro: preservar e enaltecer a cultura gaúcha, que estava sendo ameaçada pelas mudanças sociais e econômicas do período. O gaúcho de Fierro não é apenas um personagem, mas uma metáfora para uma Argentina em transformação, onde as tradições rurais estavam sendo substituídas por uma sociedade mais urbana e estruturada. Dessa maneira, Martín Fierro se tornou mais do que uma obra literária – tornou-se parte da identidade cultural do país.

Transformação e sabedoria

Outro aspecto fundamental do poema é a evolução de seu protagonista. No primeiro livro, El gaucho Martín Fierro, ele é um homem impulsivo, que responde às injustiças com violência e vive em constante fuga. No entanto, em La vuelta de Martín Fierro, sua visão de mundo muda. Após anos de errância, ele percebe que a sabedoria e a prudência são armas mais poderosas do que a força bruta. Essa mudança reflete um amadurecimento, não apenas do personagem, mas também da mensagem da obra, que passa de uma narrativa de vingança para um ensinamento sobre a importância do conhecimento e da experiência.

Essa transformação se expressa claramente nos conselhos que Fierro dá a seus filhos e companheiros, que se tornaram as passagens mais memoráveis do poema. Entre elas, destaca-se o trecho:

“Los hermanos sean unidos
Porque esa es la ley primera.
Tengan unión verdadera
En cualquier tiempo que sea,
Porque si entre ellos pelean
Los devoran los de afuera.”
5

E na tradução de Carlos Nejar:

“Os irmãos sejam unidos,
porque é esta a lei primeira;
tenham união verdadeira
em qualquer lugar que estejam,
porque se entre si pelejam
os devora a gente alheia.
6

Esse ensinamento sobre solidariedade e unidade reflete um dos valores mais importantes da obra: a necessidade de se apoiar uns aos outros para sobreviver em um mundo hostil. Não à toa, esse verso continua sendo amplamente citado na Argentina, servindo tanto como um princípio moral quanto como um reflexo da própria história do país, marcada por divisões e conflitos internos.

Martín Fierro e a literatura universal

Quando começamos a estabelecer paralelos entre Martín Fierro e outras grandes obras da Literatura universa, há duas comparações que são especialmente interessantes. A primeira é a relação arquetípica que existe entre nosso gaúcho e Odisseu, o protagonista da Odisséia de Homero, outorgando-lhe o título até mesmo de Odisseu dos pampas.

Da mesma forma, outro grande símbolo de luta e resistência por seus ideais é nosso cavaleiro andante favorito: Dom Quixote. Ao fazermos uma análise mais precisa, percebemos que ambas as obras apresentam muito mais pontos de convergência do que se imagina, possibilitando uma nova leitura a partir da comparação dos dois.

Martín Fierro e Odisseu: uma jornada de volta para casa

Martín Fierro, o gaúcho errante imortalizado por José Hernández, e Odisseu, o astuto rei de Ítaca descrito por Homero, compartilham um mesmo arquétipo literário: o do herói errante, cuja jornada é marcada pela resistência ao destino e pela busca incessante de seu lugar no mundo. Ambos enfrentam adversidades que os afastam de suas origens – Fierro, exilado pela opressão do governo, e Odisseu, condenado pelos deuses a vagar por mares desconhecidos. Suas trajetórias são permeadas por desafios que testam não apenas sua força física, mas sobretudo sua inteligência e capacidade de adaptação.

Outra semelhança notável entre os dois heróis está na relação com suas respectivas sociedades. Martín Fierro representa o homem livre que se rebela contra um sistema que o oprime, tornando-se um símbolo da identidade gaúcha e da resistência à civilização imposta. Odisseu, por sua vez, é um guerreiro astuto, cuja habilidade em manipular palavras e situações o torna tanto um herói quanto um outsider, alguém cuja inteligência o distingue dos demais. Ambos são figuras que oscilam entre a marginalização e o reconhecimento, desafiando as normas estabelecidas e mostrando que o verdadeiro heroísmo muitas vezes reside na astúcia e na resiliência.

Por fim, suas histórias convergem em um mesmo ponto essencial: o desejo de retorno. Fierro, depois de anos de errância, busca reencontrar sua família e redescobrir seu lugar no mundo gaúcho. Odisseu, após anos de aventuras, almeja Ítaca e o reencontro com Penélope e Telêmaco. No entanto, em ambos os casos, o retorno não é um simples regresso ao passado, mas uma transformação – eles não são mais os mesmos homens que partiram. Essa busca pela identidade e pelo pertencimento, marcada por provações e autodescoberta, faz de Martín Fierro e Odisseu dois espelhos de um mesmo arquétipo heroico, adaptado às culturas e tradições que os moldaram.

Martín Fierro e Dom Quixote: a luta contra a injustiça

Além de Odisseu, é possível estabelecer relações também entre Martín Fierro e Dom Quixote. Apesar de pertencerem a mundos e épocas diferentes, ambos os personagens compartilham a essência do herói errante que desafia a realidade de maneira singular. O gaúcho de José Hernández e o cavaleiro de Miguel de Cervantes são figuras deslocadas, cujas jornadas os colocam em confronto com as normas impostas pela sociedade. Enquanto Fierro é perseguido pelo governo e forçado a vagar pelos pampas, lutando por sua liberdade, Quixote se lança voluntariamente em uma cruzada movida pelo idealismo, convencido de que pode restaurar os valores da cavalaria. Se um luta por sobrevivência, o outro combate em nome de um ideal, mas ambos seguem irredutíveis em seus propósitos.

Além disso, a maneira como encaram a justiça e o uso da força os aproxima e os distingue ao mesmo tempo. Martín Fierro, moldado pela dureza da vida no campo, responde à opressão com a faca, acreditando que a violência é seu único recurso diante das injustiças. Já Dom Quixote, movido por um senso de honra idealizado, entra em batalhas simbólicas contra inimigos imaginários, enxergando gigantes onde há apenas moinhos de vento. Enquanto Fierro age de forma pragmática, consciente da brutalidade do mundo, Quixote desafia a realidade com sua fé inabalável em um código de conduta que só ele reconhece. No entanto, ambos permanecem fiéis aos próprios princípios, mesmo quando tudo ao redor parece desmoronar.

Por outro lado, tanto o gaúcho quanto o cavaleiro representam figuras de resistência em tempos de mudança. Fierro simboliza um modo de vida que se vê ameaçado pela modernização e pelo avanço das instituições estatais, enquanto Quixote encarna o choque entre um passado de ideais heroicos e um presente cada vez mais cínico. Suas histórias se encerram de forma melancólica, mas reveladora: Fierro segue errante, sem um lugar fixo no mundo, e Quixote, ao recuperar a lucidez, percebe que sua grande aventura foi uma ilusão. Ainda assim, os dois permanecem como ícones eternos da liberdade, da luta contra as imposições da realidade e da resistência de quem se recusa a se curvar ao destino.

A influência de Martín Fierro na cultura argentina

Quando começamos a conhecer melhor a cultura da Argentina, vemos que há mais do que tango e asado a ser desvendado. Esse país hermano possui uma diversidade cultural marcada abundantemente pela cultura gauchesca, e a figura de Martin Fierro ergue-se como um grande símbolo de nação, acompanhada da música folclórica regional e dos costumes de lida no campo.

A verdade é que desde sua publicação, Martín Fierro transcendeu a literatura e tornou-se um dos pilares da identidade cultural da Argentina. A obra de José Hernández consolidou a imagem do gaúcho como um símbolo nacional, e também influenciou a educação, a música, o cinema e o pensamento político do país. Seu impacto se mantém vivo até os dias de hoje, servindo como referência tanto para os debates sobre identidade e tradição quanto para discussões sobre justiça social e marginalização.

Fierro na educação

A presença de Martín Fierro nas escolas argentinas remonta ao início do século XX, quando o poema começou a ser incorporado ao currículo escolar como uma das obras fundamentais da literatura nacional. Desde então, o poema é amplamente estudado em diversos níveis de ensino, sendo muitas vezes o primeiro grande clássico com o qual os estudantes argentinos têm contato.

Segundo um estudo de Juan Manuel Gil (2022), Martín Fierro desempenha um papel crucial na formação da identidade nacional, pois apresenta aos jovens a figura do gaúcho como um arquétipo da cultura argentina.7 Ao explorar temas como liberdade, injustiça e resistência, o poema permite discussões que vão além da literatura, abordando também a história do país e as transformações sociais pelas quais passou.

Além disso, o ensino de Martín Fierro nas escolas reforça a importância da tradição oral e da payada, gêneros fundamentais para a cultura do Prata. Professores frequentemente incentivam os alunos a declamar trechos da obra, uma prática que mantém viva a musicalidade e o ritmo dos versos originais. Dessa forma, o poema não é apenas lido, mas vivido como uma experiência cultural que resgata e perpetua valores e símbolos da identidade argentina.

Fierro no cinema e na música

O impacto de Martín Fierro na cultura popular argentina se estende ao cinema, ao teatro e, especialmente, à música. Desde o início do século XX, o poema inspirou diversas adaptações cinematográficas, como Martín Fierro (1968), dirigido por Leopoldo Torre Nilsson, e a animação Martín Fierro: La Película (2007), que buscou introduzir a obra às novas gerações.

Na música, a influência do poema é igualmente marcante. Artistas como Atahualpa Yupanqui e Mercedes Sosa, grandes expoentes da música folclórica argentina, incorporaram trechos de Martín Fierro em suas canções, ajudando a difundir a obra para além do universo literário. A famosa cantora Mercedes Sosa, conhecida por seu engajamento social, utilizou versos do poema para reforçar mensagens de resistência e identidade cultural. Yupanqui, por sua vez, se apropriou da tradição das payadas para interpretar e recriar trechos da obra, reforçando a conexão entre a poesia gauchesca e a música folclórica.8

Essa influência musical demonstra como Martín Fierro não é apenas um poema fixado na tradição escrita, mas sim uma obra viva, constantemente reinterpretada e adaptada às novas formas de expressão artística. O fato de suas palavras serem cantadas e declamadas por gerações reforça sua permanência no imaginário coletivo argentino.

Para onde queremos ir?

Martín Fierro não é apenas o maior clássico da literatura argentina — é um espelho da alma nacional. Através de seus versos, José Hernández capturou os dilemas de uma sociedade em transformação, deu voz a um povo marginalizado e imortalizou o gaúcho como símbolo de resistência, liberdade e identidade. A força do poema reside na sua capacidade de dialogar com diferentes gerações, mantendo-se atual mesmo em meio às mudanças do tempo. 

Mas Martín Fierro não é apenas um símbolo nacional argentino. Nesse personagem aguerrido e melancólico, marcado pela errância, encontramos diversos temas comuns a todos nós. Com ele, nos indignamos com as injustiças e a repressão. Com ele também, choramos perdas, saudade e desconsolo, ao estarmos longe das pessoas que amamos. E ainda com ele, sentimos na pele um pouco dessa errância que acompanha qualquer ser humano que passa pela terra e busca seu próprio caminho.

Fierro continua a viver, ensinando, emocionando e inspirando. Seu canto solitário, que nasce da dor, ecoa até hoje como uma afirmação coletiva de quem somos, de onde viemos — e, talvez, para onde desejamos ir.

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  1. Thaís N. Díaz é professora, tradutora e redatora. Formada em Letras pela UPF, também estudou Língua e Literatura espanholas na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha (USC). É mestre em Letras pela PUCRS. ↩︎
  2. Hernández, J. (1872). El gaucho Martín Fierro. Buenos Aires: Imprenta de La Pampa ↩︎
  3. Hernández, J. (2025). Martín Fierro. Dois Irmãos, RS: Clube de Literatura Clássica, p. 13. ↩︎
  4. Borges, J. L. (1951). El escritor argentino y la tradición. Emecé Editores. ↩︎
  5. Hernández, J. (1872). El gaucho Martín Fierro. Buenos Aires: Imprenta de La Pampa  ↩︎
  6. Hernández, J. (2025). Martín Fierro. Dois Irmãos, RS: Clube de Literatura Clássica, p. 279. ↩︎
  7. Gil, J. M. (2022). Martín Fierro en aulas de la escuela primaria. Anales De Lingüística, (13), 199–233. https://doi.org/10.48162/rev.57.006 ↩︎
  8. Yupanqui, A. (1980). Milonga del Martín Fierro. ↩︎

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