Por Thaís Nicolini Díaz1
Será que todos nós temos um pouco de Dom Quixote? A verdade é que este famoso hidalgo, louco e sensato, mudou para sempre a forma como enxergamos a vida e a própria realidade. De um escondido local da Mancha, sua trajetória ecoa pelos séculos e por todos os territórios mundo afora… Talvez muito mais do que alguém de carne e osso.
El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha é uma obra-prima, e nela há muito mais a descobrir por baixo da superfície da comicidade e da suposta sátira à cavalaria. Dom Quixote é a perfeita união entre o cômico e o melancólico, entre o humor e a tragédia – e encerra em si os grandes dramas da humanidade.
Publicado em 1605 (Parte 1) e 1615 (Parte 2), é considerado o primeiro romance moderno e até hoje desperta discussões sobre razão e loucura, sonho e realidade, idealismo e pragmatismo.
Neste artigo, faremos uma análise dessa obra inesgotável, explorando a vida de Miguel de Cervantes, o impacto cultural do livro e as principais interpretações filosóficas e literárias.
E você? O que acha de Dom Quixote? Ele era um louco ou um herói? Deixe sua opinião nos comentários!
Quem foi Miguel de Cervantes?
A biografia de Miguel de Cervantes Saavedra é uma das mais interessantes para um escritor: foi soldado, quase morreu em batalha, participou de uma grande vitória, foi escravo de piratas, e ainda escreveu um dos maiores clássicos da literatura mundial.
Para começar essa história, voltaremos à Espanha de 1547, onde nosso querido escritor nasceu, em um pequeno pueblo chamado Alcalá de Henares. Não permaneceria ali muito tempo, no entanto. Alguns anos de sua vida foram vividos na Itália, onde se deslumbrou pela arte e pela arquitetura italianas, fato que marcaria para sempre suas obras, de forma especial suas também famosas Novelas Ejemplares.
Na Itália, alistou-se na Marinha para lutar na Batalha de Lepanto. Em 1571, participou daquela que ele refere como “a mais sublime ocasião que viram os séculos passados e os presentes, e que esperam ver os vindouros”2, ocasião que lhe rendeu glória e ferimentos. Nesta batalha, foi atingido por um tiro de arcabuz no peito e na mão esquerda, deixando-a inutilizada. Daí vem seu famoso apelido “o manco de Lepanto”, pelo qual ficou conhecido e que era, para ele, ocasião de grande honra e orgulho.
Vale lembrar que esta batalha não foi apenas importante para a Liga Santa, que lutou contra o Império Otomano. Além de consolidar a luta entre cristãos e muçulmanos da época, a Batalha também é considerada milagrosa: conta-se que, estando os cristãos em menor número, puseram-se a rezar o rosário pedindo o auxílio de Nossa Senhora. Nesta ocasião, Nossa Senhora teria aparecido no céu e auxiliado o exército cristão para conseguir sua vitória. E Cervantes teria presenciado essa batalha milagrosa.
Apesar dos limites entre fé e razão, sabemos bem o quanto ser um soldado marcou para sempre o coração de Cervantes, mas sua luta estava longe de acabar. Um tempo depois, no trajeto de retorno para a Espanha, foi capturado por corsários argelinos e permaneceu cinco anos como cativo em Argel, aguardando o dinheiro necessário para seu resgate. Quem finalmente conseguiu resgatá-lo foram os padres da Ordem Trinitária, congregação que enviava missionários com a missão de resgatar cristãos que estavam sob o domínio muçulmano. A eles, Cervantes seria grato por toda a vida, dedicando, inclusive, uma homenagem em “A espanhola inglesa”, novela que compõe suas Novelas Ejemplares3.
Já de volta à Espanha, depois de tantos percalços, Cervantes nunca teve uma vida abastada nem muito reconhecimento ou prestígio como escritor. Já para o final da vida, conseguiu o apoio financeiro do Conde de Lemos – a quem dedica várias obras – e finalmente consegue escrever a maior parte de seus livros.
Em 1604, publica a primeira parte de El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, um sucesso imediato. Com sua dupla de protagonistas inesquecíveis, Dom Quixote começa a formar parte da identidade espanhola, como o faz até hoje. No entanto, foram anos até que o autor decidisse publicar a segunda parte, que se deu apenas em 1615. Neste meio tempo, um autor desconhecido, sob o pseudônimo de Alonso Fernández Avellaneda, publicou uma continuação de Dom Quixote sem a autorização de Cervantes – sim, um plágio – fazendo com que Cervantes se apressasse a publicar sua continuação verdadeira poucos meses depois.
Em Dom Quixote, Miguel de Cervantes exibe toda sua engenhosidade e genialidade como autor. Brinca com seus personagens, narradores, e toca de forma totalmente inovadora os limites entre realidade e ficção, loucura e sanidade, fé e razão. Na história do Cavaleiro da Triste Figura, vemos o domínio e a genialidade deste homem das armas e das letras que, em sua escrita, é capaz de unir suas experiências como soldado, escravo e exímio escritor, e que, apesar das dificuldades, construiu a história mais importante da literatura espanhola – e, talvez, do mundo.
Para compreender Dom Quixote de la Mancha
No primeiro capítulo da obra, já conhecemos uma história pouco convencional: um senhor, com idade já de 50 anos, sem muitas posses ou títulos, mas obcecado por novelas de cavalaria, lê tanto essas histórias que “se le secó el cerebro”4, e a razão dá lugar a uma louca decisão – tornar-se cavaleiro andante e andar pelo mundo, fazendo justiça e defendendo os mais fracos.
No coração deste louco cavaleiro, começam a enumerar-se os itens fundamentais: era preciso ter um cavalo, afinal o que seria de um cavaleiro sem seu cavalo? Daí conhecemos Rocinante, um “pangaré” transformado em cavalo nobre. Também era necessário armas e uma armadura, algo que o cavaleiro mesmo fabrica com algumas sucatas encontradas. E a dama? Ah, a dama não poderia faltar tampouco… Dulcinea del Toboso é a nobre “dama” pela qual o Quixote dedica seu amor e suas aventuras. E, claro: um escudeiro, sempre ao lado de seu amo para servi-lo em seus grandes feitos – o incomparável Sancho Pança.
Assim temos a transformação mais genial e cômica de um velho louco e apaixonado. Um tom burlesco e uma história absolutamente cômica, mas que aos poucos vai se revelando muito maior do que a picaresca, típica do país, ou do que as tão criticadas e amadas novelas de cavalaria.
A história avança com diversas aventuras, enquanto Dom Quixote é zombado, maltratado, surrado, criticado – e tudo o mais que apenas alguém louco poderia aguentar. Na primeira parte, vemos ainda a presença de vários relatos intercalados, técnica usada por Cervantes para conquistar os leitores da época, ávidos por um bom romance, e mantê-los interessados até o fim das peripécias de seu cavaleiro. Vemos, ainda, diálogos cada vez mais profundos entre Dom Quixote, tão erudito e literato, e Sancho, seu escudeiro prático e comilão.
Mas além da comicidade, começamos a ver, pouco a pouco, algo inesperado: uma crueldade que emerge das farsas e zombarias, uma compaixão por este Quixote inocente e de coração tão nobre. E entre as aventuras insanas do cavaleiro e seu escudeiro, brotam discursos sensatos, causas nobres e luta por justiça. Quem será mesmo o louco em toda essa história?
Essa percepção se reforça ainda mais na segunda parte, onde muitas outras aventuras levarão nosso cavaleiro à completa ruína e desolação. A cada golpe e zombaria, vamos vendo um homem que perde, aos poucos, o sentido de sua própria vida. A “sanidade” tão almejada por quem o acompanhava termina por matá-lo. Já não era mais Dom Quixote, tão nobre e obstinado em seus ideais, mas Alonso Quijano, um senhor da região da Mancha que perde seu brilho de viver.
Alguns literatos e biógrafos defendem que Cervantes matou Dom Quixote para evitar que o plagiassem de novo. Mas, será que uma decisão dessa magnitude seria movida tão-somente por um viés prático? A verdade é que, ao nos mostrar a desolação do Quixote e a perda do sentido de sua vida, não poderia mais sobreviver este homem que conheceu a nobreza de viver por um grande ideal. E ao morrerem seus ideais e sonhos, morre também seu próprio ser.
Dom Quixote: louco ou herói?
Em seus mais de 400 anos de publicação, Dom Quixote já ganhou inúmeras leituras e interpretações, estudos minuciosos e hipóteses sem fim. Ainda estamos descobrindo tudo o que esta obra pode nos dizer, mas podemos pensar juntos em algumas possibilidades interpretativas que emergem da obra-prima de Cervantes.
A primeira delas, é claro, é o contraste que vemos entre a razão e a loucura. Dom Quixote encerra em si uma interessante dicotomia: de um lado, o cavaleiro com ações loucas e completos disparates; de outro, o homem com o discurso mais sensato de todos, com o pensamento reto e nobre, já raro em sua época.
Afinal, o que define a loucura e a sanidade? Para além das discussões filosóficas, esse tema já perpassou inúmeras obras literárias – incluindo o clássico do nosso Bruxo, O Alienista. E numa fronteira tão tênue, Dom Quixote nos parece cada vez mais são – talvez o único entre todos aqueles que estavam ali.
A figura quixotesca evoca uma grande questão: quão loucos estamos? Quem detém a verdade e a razão? Até que ponto viver conforme acreditamos pode parecer loucura a muitos que pensam o contrário de nós?
A luta por um ideal: o sentido da vida em Dom Quixote
Mas nosso querido Quixote não representa apenas a loucura da qual todos nós partilhamos um pouco. Suas aventuras também revelam um ponto nevrálgico da vida humana: o sentido da vida, a luta por um ideal palpável e verdadeiro. O que nos move, afinal, senão viver de acordo com o que consideramos verdadeiro?
Este propósito quixotesco é nítido desde o início da obra, mas cada vez mais concreto com o passar das aventuras. O que leva Dom Quixote a aguentar as decepções, surras e zombarias não é sua “loucura”, mas o ideal pelo qual ele luta.
Já diria o famoso psiquiatra Viktor Frankl que “Quem tem um porquê enfrenta qualquer como”5. Em Dom Quixote, podemos ver essa concretização do ideal, o poder de uma vida com propósito, e o quanto o esvaziamento deste propósito é capaz de destruir e cercar-nos de desolação. A obra, portanto, pode ser vista também desta forma: como um retrato de uma das inquietações mais profundas do coração humano.
Se nos falta propósito, falta-nos vida – talvez não literalmente, como o fim de Alonso Quijano, mas certamente em alguma instância de nossa existência.
Tragédia e comédia: a dualidade na obra de Cervantes
Também há quem diga que Dom Quixote é uma sátira às novelas de cavalaria. Por um lado, não podemos descartar completamente essa percepção, visto que a obra, de fato, toma para si elementos típicos da cavalaria e lhes confere uma roupagem burlesca e satírica. Isso ocorre com o próprio Dom Quixote que, não sendo um cavaleiro jovem, nobre e forte, depara-se com a realidade de ser velho, muito magro e pobre – os contrastes já iniciam, inegavelmente. Também vemos isso em outros elementos que o acompanhavam: Sancho Pança, seu escudeiro atrapalhado, Rocinante, seu “cavalo” improvisado, Dulcinéia, sua “dama” inventada, e claro, suas inúmeras tentativas de vencer monstros e feiticeiros imaginários.
Os elementos formam um quadro que, de longe, soa à sátira, e lembra ainda o tom zombeteiro da picaresca espanhola, gênero que ganhava força e popularidade. Por outro lado, o contexto espanhol da época é um interessante eixo de análise para repensar até que ponto Dom Quixote poderia ser reduzido a uma mera sátira de um gênero literário que já estava prestes a cair no esquecimento.
Será que Dom Quixote sobreviveria todos estes séculos com a simples missão de satirizar um gênero literário inferior? Certamente não. Seu sucesso estrondoso se deve a algo mais profundo e perene. Mas para entendê-lo, precisaremos contemplar o quadro completo.
Em seu século de publicação, a Espanha já havia passado por muitas transformações. Depois do reinado dos reis católicos Isabel e Fernando, com sua morte, começou a esmorecer o espírito medieval que por muitos séculos forjou o coração espanhol. Seus reinos, povos, edifícios, igrejas, tudo estava plenamente imbuído do pensamento medieval completo: católico, fiel à Igreja de Roma e ao Papa, mas também “mágico” e aberto a superstições. Os ideais de bravura e honra eram fundamentais para a construção social e sua hierarquia, confirmados pela cavalaria e pelo amor cortês.
Essas realidades começam a mudar, porém, a partir do século XVI. O advento renascentista traz consigo um olhar focado na razão e no homem, e a visão que até então havia sido teocêntrica começa a enxergar o mundo de forma distinta, e vê no homem seu grande mistério. Na religião, a reforma e a contrarreforma haviam deixado suas marcas no povo espanhol. Na literatura, entre o século XVI e XVII, viveu-se o período de maior esplendor – o chamado Século de Ouro espanhol. Neste período, emergiram grandes autores como Lope de Vega, Francisco de Quevedo e Pedro Calderón de la Barca. E embora Cervantes seja o mais famoso e lembrado por nós, em sua época não era dos mais prestigiados (mais uma dessas ironias da vida de escritor).
Nosso escritor-soldado vivia um período de grande transição: o pensamento medieval morria, pouco a pouco, para dar lugar aos novos ideais renascentistas e, posteriormente, barrocos, e tanto arte quanto literatura registram magistralmente essa mudança de paradigma na história do pensamento. Não nos parece claro, pois, que um tamanho choque cultural deveria ser representado na literatura? Mas de que forma?
Para nossa surpresa, não viria em forma de discursos ou explicações. A grande mudança de paradigma, a grande transformação de pensamento, estava encarnada em uma obra da literatura universal: Don Quijote de la Mancha. Concebendo o livro em seu contexto histórico, parece inescapável considerar que, sim, Dom Quixote pode ser visto como uma grande representação do desajuste do pensamento medieval, que ainda sobrevivia no coração espanhol – embora já “velho”, pálido, sem forças e sem a glória que possuíra outrora.
A grande mudança de paradigma, a grande transformação de pensamento, estava encarnada em uma obra da literatura universal: Don Quijote de la Mancha.
Este pensamento, como já sabemos, não resiste — nem no tempo, nem na obra. Em ambos, dá-se fim ao que já foi o grande ideal da humanidade por mais de mil anos.
Neste sentido, uma análise simbólica e até mesmo arquetípica da obra nos permite olhar para Dom Quixote como a representação do desajuste medieval em uma Espanha ainda cheia de idiossincrasias. E mais além ainda, podemos pensar: este Dom Quixote desajustado não pode ser estendido também a todos nós, desajustados, em alguma medida, em nosso próprio tempo?
É interessante pensar que, comumente, se louva alguém que vive “à frente de seu tempo”. Mas e alguém que vive “atrás”, o que poderá receber? Qual é o desajuste daquele que vive a mudança de pensamento e não se adequa às suas transformações?
Não sabemos ao certo. Mas podemos olhar para Alonso Quijano como uma das maiores metáforas dessa inquietação.
Um clássico inesgotável
Com tudo isso, é inegável a profundidade que esta grande obra, em tamanho e em importância, legou para a humanidade. Por isso, Dom Quixote é admirado e lido por tantas gerações, e estende sua influência a tantos escritores. Podemos citar Charles Dickens, Fiódor Dostoiévski, Jorge Luis Borges, Gustave Flaubert e tantos outros que, encantados pelo Cavaleiro da Triste Figura, veem em Cervantes uma das maiores fontes de inspiração e genialidade literárias:
“Dom Quixote é a maior de todas as obras-primas. Cervantes foi um gênio porque ele uniu o humor à tragédia de maneira única e perfeita. Nunca, desde então, alguém conseguiu realizar o mesmo feito com a mesma grandeza.” – Fiódor Dostoiévski
Para saber mais sobre essa obra, acesse nosso vídeo no YouTube sobre o tema!
E, claro, conheça também nossa edição de Dom Quixote!
Que este clássico imortal nos ajude a continuar pensando sobre a vida como ela é: um misterioso paradoxo entre razão e loucura, humor e tragédia, pertencimento e desajuste, vida e morte.
A jornada apenas começou. O que mais nos aguarda nos caminhos da Mancha?
- Thaís N. Díaz é professora, tradutora e redatora. Formada em Letras pela UPF, também estudou Língua e Literatura espanholas na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha (USC). É mestre em Letras pela PUCRS. ↩︎
- Cervantes, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. Tradução de Aquilino Ribeiro. Dois Irmãos, RS: Clube de Literatura Clássica, 2021. ↩︎
- Cervantes, Miguel de. Novelas Ejemplares. Alicante: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2001. ↩︎
- Cervantes, Miguel de. El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha (obra completa). Madrid: Grupo Anaya, 1987. ↩︎
- Frankl, Victor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 49 ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2020. ↩︎