Entre a Terra Média e a Idade Média: A relação complexa e fascinante entre Tolkien e Thomas Malory

O que do mundo arturiano de Sir Thomas Malory está presente no universo de Tolkien.

À primeira vista, Sir Thomas Malory e J.R.R. Tolkien ergueram reinos separados por muitos mares: de um lado, Camelot, um reino confessadamente cristão, com seus cavaleiros, juramentos e espadas encantadas; de outro, Gondor, Númenor, Valfenda, reinos de fantasia, em que o autor, ele próprio cristão, não queria impor o cristianismo. Quem se demora, porém, nas paisagens desses dois mundos percebe semelhanças entre elas.

A conexão existe, mas não é simples. No épico inacabado The Fall of Arthur, Tolkien se aproxima de modo mais direto do mundo arturiano de Sir Thomas Malory. Já em O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, Malory chega à Terra-média por caminhos que outras mitologias também trilharam. 

O Tolkien de O Senhor dos Anéis não era um escritor iniciante. Tudo o que ele assimilava da tradição era modificado por seu próprio estilo e por sua própria personalidade. Por isso, a pergunta a ser feita não é onde Tolkien usou o repertório de Malory, mas como ele o transformou em sua própria mitologia.

Quem foi Sir Thomas Malory

Sir Thomas Malory deu ao mundo inglês a imagem imortal do rei Arthur. Antes dele, a matéria arturiana já circulava por muitas línguas, poemas, crônicas e romances, mas em A Morte de Arthur, Malory reuniu esse vasto imaginário em uma forma narrativa poderosa, capaz de atravessar séculos. Para muitos leitores posteriores, Arthur, Camelot, Excalibur, a Távola Redonda, os cavaleiros em busca de glória, a queda do reino e a promessa nebulosa de retorno passaram a ter o rosto que Malory fixou. O Rei Arthur que conhecemos na cultura popular é o Rei Arthur de Malory. 

Mas esse Rei Arthur que chegou até nós não é uma peça simples. O estudo sério de A Morte de Arthur passa pelo manuscrito de Winchester, pela edição impressa de William Caxton, de 1485, e pelas edições críticas modernas, justamente porque há diferenças importantes entre os testemunhos e as formas pelas quais o texto foi transmitido.

Tolkien diante de Arthur: fascínio, incômodo e distância 

A relação entre Tolkien e Malory é complexa e, apesar de Tolkien ter escrito, em sua juventude, um poema épico inspirado em Malory, suas cartas denunciam uma angústia com essa influência. O mundo arturiano o atraía e o incomodava. 

Na carta a Milton Waldman, de 1951, essa tensão aparece com clareza. Tolkien reconhece a força do “mundo arturiano”, mas o considera pouco naturalizado, excessivamente feérico e explicitamente cristão de uma forma que não combinava com o tipo de mito que ele procurava construir. Tolkien não apenas herdou Arthur; ele também tentou escapar de Arthur. Por isso, as semelhanças incontestáveis entre a Terra Média e a Idade Média caminham ao lado de diferenças não menos incontestáveis.

The Fall of Arthur: o encontro mais direto entre Tolkien e Malory 

É em The Fall of Arthur que ocorre a aproximação mais evidente entre Tolkien e Malory. Entretanto, é também evidente que aqui não se trata do Tolkien maduro. Aqui, o autor inglês entra diretamente no território de Arthur, Mordred, da guerra final e do reino à beira da ruína. É o ponto, na obra completa de Tolkien, em que o diálogo com Malory se torna documentalmente mais forte. Christopher Tolkien afirma que, ao situar o poema de seu pai na tradição arturiana, recorreu sobretudo a duas fontes inglesas: o Alliterative Morte Arthure, um poema medieval anônimo sobre a morte do Rei Arthur, e o grande romance de Sir Thomas Malory.

Tolkien se aproxima de Malory no conteúdo narrativo e simbólico usando como temas a queda do rei, a grandeza condenada e a sombra da traição. A forma, porém, vem do poema medieval. The Fall of Arthur não imita a prosa de A Morte de Arthur; trata-se, em vez disso, de um poema aliterado, um poema em que não há rimas como as conhecemos, mas cujo ritmo se baseia na combinação das consoantes. 

Aqui temos um exemplo, uma estrofe do poema:

“Sun shone on swords silver-pointed

The spears sparkled as they sprang upward,

White as wheatfield. Wheeling above them

The crows were crying with cold voices.”

Observe que a estrofe não tem aquela rima marcada no final do verso, mas é cheia de repetições aliterativas, como “sun/shone/swords/silver”, “spears/sparkled/sprang”, “white/wheatfield/wheeling”.

A tradução literal dessa estrofe é:

“O sol brilhou sobre espadas de pontas prateadas;

As lanças cintilaram enquanto saltavam para cima,

Brancas como campo de trigo. Girando acima delas,

Os corvos gritavam com vozes frias.“

O rei que retorna: Arthur e Aragorn 

Entre todos os paralelos possíveis entre Malory e Tolkien, o mais importante é certamente Arthur e Aragorn, dois reis esperados. Em Malory, Arthur é reconhecido pela espada na pedra, sinal visível de uma legitimidade que não depende apenas da força, mas de uma espécie de eleição divina. Em Tolkien, Aragorn também carrega os sinais de uma realeza antiga: a linhagem de Númenor, a espada quebrada e reforjada (mistura de Excalibur com Gram, a espada lendária nórdica que o herói deveria retirar de uma árvore), o retorno a Gondor, a esperança de um reino que ainda pode ser reerguido.

Aragorn, pelos motivos que elencamos no início deste artigo, não pode ser “Arthur com outro nome”. Em Sir Thomas Malory, Arthur permanece como o centro de uma ordem cavaleiresca, rodeado pela Távola Redonda, pela glória dos próprios feitos, pelas lealdades e fraturas de um mundo aristocrático. Em Tolkien, Aragorn é outro tipo de rei: passa anos oculto, serve antes de reinar, caminha ao lado dos pequenos. Talvez Arthur fosse assim ao ressurgir da morte, mas não antes.

Excalibur, Narsil e Andúril: o sinal do rei legítimo 

Na obra de Sir Thomas Malory, Excalibur não é uma espada qualquer. A lâmina retirada da pedra confirma Arthur como rei legítimo. É claro que a espada é imbatível contra os inimigos do reino, mas a sua importância inicial é confirmar a realeza de Arthur. 

Tolkien compreendeu essa importância. Narsil, quebrada na queda de Sauron, carrega a memória de uma vitória antiga e incompleta; Andúril, reforjada a partir desses fragmentos, anuncia que a linhagem esquecida ainda pode retornar. Quando o brilho retorna à espada quebrada, significa que o rei também retornou. 

Aqui há um paralelo com outra espada mítica, de lendas germânicas e nórdicas. Nothung (ou Gram) é a espada que Wotan (ou Odin) colocou na árvore para ser retirada por Siegmund. Siegmund retira a espada, mas é traído pelos deuses, e cai com a espada em estilhaços. Ela é reforjada por seu filho Siegfried, e assim se torna a espada vitoriosa.

Nothung, Excalibur e Andúril pertencem à família das espadas que confirmam a realeza de quem as porta. São um sinal de legitimação e permanência, afinal, se são destruídas, não o são para sempre. 

Merlim e Gandalf, os magos conselheiros

Merlin e Gandalf pertencem àquela linhagem rara de personagens que enxergam mais longe do que os reis e, justamente por isso, não precisam ocupar o trono. Ambos se movem nas margens do poder: aconselham, interpretam sinais, chegam quando a história começa a pender para o desastre e viram o jogo. São figuras de transição, antigas demais para o mundo dos homens, necessárias demais para permanecerem fora dele.

O que os une, portanto, é a função mediadora. Merlin e Gandalf ligam o maravilhoso ao governo dos homens, mas Tolkien suaviza e transforma essa herança: Gandalf tem, sim, a função de mediador, mas não é arquiteto de nenhum reino. Se Merlin é, por assim dizer, um “mago nacional” por guardar os segredos de Camelot, Gandalf é um “mago universal”, por carregar as esperanças de seu mundo.

Frodo, Arthur e a viagem para o Oeste 

Há vitórias que salvam o mundo, mas não devolvem inteiramente a paz a quem as conquistou. É nesse ponto que Arthur e Frodo se aproximam de um modo muito poético. Em Sir Thomas Malory, o Rei Arthur termina ferido, retirado da história comum, levado em direção a Avalon. É uma passagem simbólica que representa a morte.

Frodo também vence sem conseguir voltar por inteiro. O Um Anel é destruído, o Condado é salvo, a sombra de Sauron cai; ainda assim, há nele uma dor que a vitória não alcança. A ferida do Topo do Vento, o peso do Anel, a memória do mal tocado de perto, tudo isso faz de Frodo alguém que já não encontra repouso no mundo. Como Arthur, ele precisa partir para o Oeste. Ora, Oeste é a direção onde o Sol se põe, é também uma passagem simbólica que representa a morte.

Obviamente, como em todas as outras comparações, Frodo não é Arthur. Há, entretanto, uma semelhança de motivos narrativos entre Frodo e Arthur, assim como há entre Aragorn e Arthur. Rei Arthur enfrenta uma morte simbólica e melancólica para, um dia, retornar.  O motivo do “retorno” é retomado em Aragorn; o motivo da “morte simbólica e melancólica” é retrabalhado em Frodo. 

Da Távola Redonda à Sociedade do Anel 

A Távola Redonda é uma das grandes imagens da literatura medieval: cavaleiros reunidos em torno de um centro comum, ligados por honra, serviço, lealdade e glória. Em Sir Thomas Malory, ela representa o esplendor da ordem arturiana, pois é uma comunidade marcada pela imaginação aristocrática da cavalaria. São os melhores cavaleiros do reino, chamados a provar valor em feitos de armas.

A Sociedade do Anel também nasce como comunidade heroica, mas Tolkien muda profundamente o seu sentido. Ali não estão apenas os nobres, os fortes ou os naturalmente preparados para a grandeza. Estão um mago, homens, um elfo, um anão e hobbits, sobretudo hobbits, criaturas pequenas aos olhos do mundo. A missão já não pertence a uma elite cavaleiresca; ela passa a depender de uma comunidade improvável.

Não deixa de ser curioso como a imagem do círculo está presente nas duas sociedades. Na Távola Redonda ela representa o céu, o zodíaco, o destino glorioso de quem assume seu lugar na mesa. No caso da Sociedade do Anel, o objetivo é destruir o Um Anel, pois o círculo aqui representa controle, ordem sufocante. A Sociedade do Anel, diferente da Távola Redonda, é uma ordem cujo objetivo é o próprio desfazimento. 

O que podemos aprender com as semelhanças entre Tolkien e Malory

A relação entre Malory e Tolkien fica mais interessante quando resistimos à tentação de simplificá-la. Malory foi decisivo para o Tolkien arturiano de The Fall of Arthur, onde a presença de A Morte de Arthur é direta e documentada. Na Terra Média madura, porém, sua influência aparece de modo mais indireto: filtrada, inclusive, pela mitologia nórdica (como vimos na questão das espadas), pela filologia e por um cristianismo mais discreto que o de Sir Thomas Malory.

Seria ingênuo fazer a comparação acreditando que Tolkien quis construir a Terra Média como uma nova Camelot. Ele passou por Camelot, discutiu com Camelot, recusou parte de Camelot e transformou a parte que aceitou.

Essa transformação, em Tolkien, passou também por um crivo moral. O rei tornou-se servidor, a morte simbólica de Frodo é glória e não queda, o símbolo circular do Um Anel é mau e precisou ser destruído, a Sociedade do Anel é uma sociedade de amigos imperfeitos. Tolkien fez a sua atualização do mito, cabe a nós fazermos a nossa. Embora nem todos tenhamos a pretensão de escrever uma obra épica como O Senhor dos Anéis, todos nós escrevemos, dia por dia, a obra de nossa vida; e a herança de Sir Thomas Malory nos ajuda formidavelmente com essa tarefa. 

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