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Quem foi Fiódor Dostoiévski?

Quem foi Fiódor Dostoiévski: vida, fé e abismo de um gênio russo

Fiódor Mikhailovich Dostoiévski soube capturar com maestria a turbulência da alma humana, desde seus movimentos mais sutis, os quais, não raro, passam despercebidos pela consciência, às grandes e intensas revoluções interiores. Ler seus romances é como atravessar uma porta para dentro de um espírito em combustão: conflitos éticos, crises existenciais, fé, niilismo, violência moral. Em suma, a sua obra expressa a essência do conflito do homem contra a sua própria natureza. Conflito este em que nada é tão simples quanto parece.

Para compreender essa obra tão intensa, é necessário conhecer a vida, igualmente intensa, que a gerou.

Quem foi Fiódor Dostoiévski?

Fiódor Dostoiévski nasceu em Moscou, em 1821, e morreu em São Petersburgo, em 1881. Foi romancista, contista e jornalista russo, além de um pensador singular que integrou literatura, filosofia e teologia de maneira inédita. Seus livros não apenas contam histórias: eles colocam em cena ideias em conflito, dilemas morais insolúveis e perguntas fundamentais sobre a liberdade humana.

Considerado um dos precursores do existencialismo moderno, Dostoiévski também é frequentemente descrito como um dos maiores psicólogos da literatura. Essa definição não se refere a teorias científicas, mas à sua capacidade de representar o pensamento humano em estado de tensão extrema, quando razão, emoção, fé e desespero se chocam sem síntese possível.

Um retrato biográfico

Dostoiévski nasceu em 30 de outubro de 1821, em Moscou, em um ambiente familiar paradoxal: ao mesmo tempo marcado por uma disciplina austera e pela imaginação literária. O pai, Mikhail, médico militar, era temperamental e autoritário; a mãe, Maria, era delicada, sensível e incentivou desde cedo a leitura. Esse contraste – dureza e ternura, opressão e amor – aparece mais tarde em personagens como Fiódor Karamázov e Sofia Marmieládova.

A infância foi permeada por doenças, isolamento e longas horas de estudo doméstico. Ele lia Pushkin, Gógol, Karamzin, Schiller e Victor Hugo, absorvendo o romantismo e o humor trágico que moldariam seu estilo.

A morte precoce da mãe, em 1837, foi devastadora. Dois anos depois, morre seu pai – segundo biógrafos, provavelmente de apoplexia, mas Dostoiévski acreditou até o fim da vida que ele fora assassinado por servos. Esse trauma de “parricídio imaginado” ecoa claramente em Os Irmãos Karamázov, especialmente no destino de Fiódor Pavlovitch.

Enviado à Escola de Engenharia Militar, Dostoiévski detestava a vida militar, mas encontrou ali um porto literário. Ele lia obsessivamente à noite, dormia pouco, traduzia romances franceses e participava de círculos artísticos.

Aos 23 anos, traduz um romance balzaquiano, Eugénie Grandet, e descobre que poderia viver de literatura. Abandona a engenharia e mergulha de vez na escrita. Pouco depois, publica Gente Pobre (1846), que causa impacto imediato. Belinski, o maior crítico literário da Rússia, o saúda como sucessor espiritual de ninguém menos que Gógol.

Esse reconhecimento, contudo, seria apenas o primeiro pico de uma vida cheia de ascensões e quedas.

Após o sucesso inicial, inclusive, obras como O Duplo (1846) foram mal-recebidas. O jovem escritor, antes aclamado, passou a ser ridicularizado pela crítica, que caracterizava suas histórias como “confusas”, “doentias” e “exageradamente psicológicas”.

O cárcere e a revelação

Em 1849, o autor de Noites Brancas aderiu a um círculo progressista que discutia Fourier, socialismo utópico, servidão russa e literatura proibida. O czar Nicolau I viu no grupo uma ameaça. Dostoiévski foi preso, interrogado durante meses e condenado à morte.

O episódio do quase-fuzilamento é um dos momentos mais dramáticos da história da literatura. Ele já estava diante do pelotão, capuz na cabeça, quando recebeu o “perdão” encenado. Essa violência emocional o marcou profundamente. Ele conheceu o limite absoluto entre vida e morte – e esse limite aparece em seus romances como uma fronteira filosófica: como viver verdadeiramente quando se sabe que tudo pode acabar num instante?

Depois da comutação, foi enviado para a Sibéria. O jovem escritor, elegante e frágil, agora dividia um barracão com assassinos, ladrões e marginais. Não tinha direito à leitura, escrita, tinta ou papel. Dormia em tábuas infestadas de percevejos.

Foi ali, no entanto, no exílio, que a sua visão espiritual renasceu.

Na prisão, Dostoiévski entrou em contato com o “povo russo”, suas crenças ortodoxas, suas dores, seu humor e suas contradições. Ele viu assassinos rezarem, ladrões chorarem e pecadores mostrarem grandeza. Desse choque surgem personagens como Sonia Marmieládova, Aliôcha Karamázov, o tenente Rogójin e o próprio príncipe Míchkin.

Dessa vivência extrema nasce Recordações da Casa dos Mortos (1862), obra decisiva não apenas na trajetória de Dostoiévski, mas na história do romance moderno. Ao abandonar o sentimentalismo moralizante e a idealização do sofrimento, o escritor coloca a literatura frente a frente com a realidade crua do cárcere: a violência cotidiana, a degradação física, a brutalidade institucional, mas também os gestos inesperados de humanidade que sobrevivem mesmo nas condições mais desumanas. O livro inaugura uma nova forma de olhar para o homem comum, recusando julgamentos fáceis e revelando a complexidade moral de indivíduos que a sociedade preferia reduzir à categoria de “criminosos”. A partir daí, o romance deixa de ser apenas um espaço de elevação moral ou entretenimento psicológico e passa a se tornar um campo de confronto com a experiência limite.

A regeneração espiritual e o retorno

De volta a São Petersburgo no fim da década de 1850, Fiódor Dostoiévski encontrou uma realidade dura e instável. Os anos que se seguiram foram marcados por dificuldades financeiras severas, agravadas pela responsabilidade de sustentar familiares e por um vício em jogos de azar que o levou a perdas constantes – experiência que mais tarde seria transfigurada literariamente em O Jogador (1867). No entanto, por trás desse caos exterior, operava-se um processo mais profundo: uma lenta e dolorosa regeneração interior iniciada ainda no cárcere.

O contato com a fé ortodoxa popular durante o exílio na Sibéria havia modificado radicalmente sua visão espiritual. Não se tratava de uma adesão dogmática ou tranquila, mas de uma religiosidade atravessada pela dúvida, pelo sofrimento e pela busca incessante de transcendência. Para Dostoiévski, a fé não era refúgio contra a dor, mas um modo de atravessá-la. Essa postura se condensa em uma de suas afirmações mais célebres e reveladoras:
“Se me provassem que Cristo está fora da verdade, eu preferiria ficar com Cristo.”

Essa frase não expressa submissão cega, mas a escolha consciente de uma verdade existencial, mesmo diante da incerteza racional. A partir desse ponto, fé e dúvida deixam de ser opostos a serem resolvidos e passam a coexistir como forças em tensão permanente, tensão que estrutura toda a sua obra posterior. Seus personagens acreditam e duvidam ao mesmo tempo; buscam a redenção, mas tropeçam no orgulho, na culpa e no desespero.

O ano de 1864 aprofunda esse estado de crise e transição. Nesse período, Dostoiévski perde a esposa e o irmão em um curto intervalo de tempo, mergulhando em um colapso emocional profundo. É nesse contexto que escreve Cadernos do subterrâneo (1864), obra em que a regeneração espiritual não aparece como consolo, mas como confronto: o homem moderno, livre e consciente, recusa sistemas fechados de sentido e se vê lançado em um abismo interior.

Dois anos depois, o encontro com Anna Grigórievna Snitkina marca um ponto de equilíbrio em sua vida. Mais do que companheira afetiva, Anna torna-se apoio prático e intelectual, organizando sua rotina, administrando suas finanças e permitindo que Dostoiévski se dedique plenamente à escrita. Essa estabilidade tardia não elimina a tensão espiritual que o move, mas cria as condições materiais para que ela se transforme nos grandes romances da maturidade, onde fé e dúvida continuam a se enfrentar – agora com plena consciência de sua complexidade trágica.

A carreira literária de Fiódor Dostoiévski

Em linhas gerais, a trajetória literária de Fiódor Dostoiévski pode ser dividida em duas fases.

Fase inicial

A fase inicial da carreira de Dostoiévski é marcada por forte influência do romantismo europeu e pelo sentimentalismo social característico da Rússia do século XIX. Nesses primeiros textos, o autor demonstra um olhar atento para o homem comum, especialmente para figuras marginalizadas, solitárias e emocionalmente vulneráveis. Trata-se de uma literatura ainda marcada pela compaixão, mas já atravessada por conflitos psicológicos profundos.

Em Gente Pobre (1846), sua estreia literária, Dostoiévski constrói um retrato comovente da miséria urbana e da dignidade moral dos oprimidos. A obra impressiona pela empatia com que trata seus personagens e pela atenção às feridas invisíveis da pobreza, o que levou críticos da época a chamá-lo de “o novo Gogol”. Aqui, já se percebe seu interesse pelo sofrimento humano não como abstração, mas como experiência concreta e cotidiana.

Logo em seguida, O Duplo (1846) aprofunda a investigação psicológica ao explorar a fragmentação da identidade. O protagonista entra em colapso ao se deparar com um sósia que encarna tudo aquilo que ele reprime. A narrativa antecipa temas centrais da modernidade – alienação, despersonalização e loucura – e revela um autor já fascinado pelos abismos da consciência.

Em Noites Brancas (1848), Dostoiévski apresenta um registro mais lírico e intimista. O texto acompanha um sonhador solitário, incapaz de integrar-se plenamente à vida social. A obra revela a tensão entre imaginação e realidade, esperança e frustração, temas que se tornariam recorrentes em sua produção.

Mesmo em textos posteriores ainda vinculados a essa fase, como O Sonho de um Homem Ridículo (1877), observa-se a persistência de uma sensibilidade moral voltada à queda, ao arrependimento e à possibilidade de regeneração. Embora esse conto seja cronologicamente tardio, ele mantém vínculos temáticos com o período inicial, sobretudo na abordagem alegórica e moral.

Fase madura

A fase madura de Fiódor Dostoiévski tem início após o trauma do cárcere e se consolida com a publicação de Cadernos do Subterrâneo. A partir desse momento, sua literatura abandona definitivamente qualquer vestígio de sentimentalismo e passa a se estruturar como um campo de confronto entre ideias, encarnadas em personagens radicalmente conscientes de si.

O narrador de Cadernos do Subterrâneo (1864) inaugura uma nova figura literária: o “homem do subterrâneo”. Trata-se de um sujeito hiperlúcido, ressentido e contraditório, que rejeita tanto o racionalismo científico quanto as promessas de progresso moral. Ele sabe demais, pensa demais e, justamente por isso, é incapaz de agir de forma harmoniosa. Esse personagem simboliza o indivíduo moderno, dilacerado entre liberdade absoluta e paralisia existencial.

A partir daí, os romances de Dostoiévski se tornam verdadeiros romances de ideias, nos quais concepções filosóficas, morais e religiosas entram em choque direto. Não há narrador onisciente que ofereça síntese ou julgamento final. Cada personagem carrega uma visão de mundo completa, e o romance se constrói como um tribunal sem veredicto.

Nessa fase, a liberdade humana aparece como um fardo insuportável. O homem é livre para escolher – e exatamente por isso pode escolher o mal, o crime, a autodestruição. O sofrimento deixa de ser apenas consequência social ou psicológica e passa a assumir um papel existencial: ele revela a verdade interior do sujeito.

A fase madura, portanto, consagra Dostoiévski como um dos grandes pensadores da liberdade moderna. Sua literatura deixa de oferecer consolo e passa a oferecer confronto: com o mal, com a fé, com a responsabilidade e com o abismo que habita o próprio homem.

Leia este belo conto de Natal de Dostoiévski: O pobrezinho ao pé da Árvore de Natal de Cristo.

Os grandes romances

Crime e Castigo (1866)

Mais do que a história de um assassinato, Crime e Castigo é uma investigação radical da consciência humana. Ao acompanhar Raskólnikov, Dostoiévski entra na mente de um homem que tenta justificar o crime por meio de teorias racionais sobre “homens extraordinários”, capazes de transgredir a moral comum em nome de um suposto “bem maior”. O romance desmonta essa pretensão passo a passo: a razão isolada, quando se divorcia da empatia e da responsabilidade, conduz não à grandeza, mas ao colapso interior. Culpa, delírio, orgulho intelectual e sofrimento compõem um retrato implacável da falência do racionalismo moral, e, ao mesmo tempo, anunciam uma nova forma de romance psicológico, intenso, febril e profundamente ético.

O Idiota (1869)

o idiota dostoievski

Em O Idiota, Dostoiévski realiza uma experiência literária ousada: inserir no mundo moderno uma figura de bondade quase absoluta. O príncipe Míchkin não é ingênuo por ignorância, mas por excesso de compaixão, sinceridade e abertura ao outro. O romance acompanha o choque entre essa pureza moral e uma sociedade marcada por vaidade, cálculo, desejo e cinismo. Longe de glorificar o bem, Dostoiévski pergunta se há lugar para ele num mundo regido por interesses e máscaras. O resultado é trágico: a bondade, quando não encontra acolhida, se destrói. O livro é, ao mesmo tempo, uma crítica da sociedade moderna e uma meditação dolorosa sobre o fracasso do ideal cristão no mundo real.

Os Demônios (1872)

Inspirado em um assassinato político real, Os Demônios é talvez o romance mais profético de Dostoiévski. Nele, o autor analisa o nascimento do fanatismo ideológico, o vazio espiritual e o niilismo que emergem quando ideias abstratas passam a valer mais do que a vida humana concreta. O livro retrata grupos revolucionários que, em nome da libertação, recorrem à violência, à manipulação e à destruição total. Mais do que uma crítica a um movimento específico, Os Demônios revela como ideologias sem lastro ético se transformam em forças autônomas, capazes de devorar indivíduos e comunidades inteiras. É um romance político no sentido mais profundo: não partidário, mas ontológico, interessado nas consequências morais das ideias quando elas se tornam absolutas.

Os Irmãos Karamázov (1880)

Edição de Os Irmãos Karamázov do Clube de Literatura Clássica

Obra final de Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov é frequentemente considerado o ápice do romance moderno. Nele, o autor reúne todas as suas grandes questões: fé e dúvida, liberdade e responsabilidade, desejo e culpa, razão e espiritualidade. Cada irmão encarna uma possibilidade existencial – o intelectual cético, o sensual impulsivo e o místico compassivo –, e o romance se constrói como um grande tribunal moral, onde nenhuma resposta é simples ou definitiva. Episódios como “O Grande Inquisidor” elevam a narrativa ao nível do debate filosófico e teológico mais alto, sem nunca perder o vínculo com o drama humano concreto. É um romance monumental porque não oferece sínteses: ele expõe o conflito como condição permanente da liberdade humana.

A filosofia de Dostoiévski

A obra de Dostoiévski se constrói como uma investigação profunda da condição humana, conduzida sempre no limite entre lucidez e insanidade. A liberdade, em seus romances, nunca aparece como um bem simples ou desejável em si mesma. Ela é, antes, uma dádiva ambígua: aquilo que torna o homem capaz de escolher o bem espontaneamente ou o livra para sempre da culpa de fazer o mal, mas também o condena à responsabilidade absoluta por suas escolhas. Ser livre, em Dostoiévski, é estar exposto ao erro, à queda e à culpa – e não protegido por sistemas morais, leis ou teorias que possam aliviar o peso da decisão individual.

É justamente a culpa que ocupa um lugar central nessa arquitetura moral. Longe de ser apenas um sentimento psicológico, ela atua como uma força corrosiva e, ao mesmo tempo, transformadora. A culpa consome os personagens por dentro, desorganiza sua racionalidade, dissolve suas justificativas intelectuais, mas também os empurra para uma verdade mais profunda sobre si mesmos. Em vez de ser negada ou superada por meio da razão, a culpa exige atravessamento: só ao enfrentá-la é que o sujeito pode vislumbrar alguma forma de redenção ou reconciliação consigo e com o outro.

O mal, nesse contexto, nunca é apresentado como algo metafísico ou externo ao homem. Dostoiévski rejeita explicações demonológicas fáceis: o mal não vem de fora, mas nasce das próprias fissuras da alma humana – do orgulho, do ressentimento, do desejo de domínio, da humilhação não elaborada. Seus personagens não são vítimas de forças sobrenaturais, mas agentes de suas próprias transgressões. Essa visão torna o mal ainda mais perturbador, pois o inscreve no cotidiano, no pensamento, nas intenções aparentemente justificáveis.

Por sua vez, o sofrimento não é romantizado, mas tampouco é tratado como absurdo puro. Ele aparece como uma experiência-limite capaz de revelar verdades morais que permanecem inacessíveis na superfície da vida social. Sofrer, em Dostoiévski, não torna ninguém automaticamente melhor; porém, pode abrir uma fenda por onde o sujeito se reconhece em sua fragilidade, abandona ilusões de grandeza e se aproxima do outro. É nesse ponto que o sofrimento se converte em possibilidade de revelação.

Nesse universo ficcional, a fé jamais assume a forma de certeza tranquila ou adesão dogmática. Crer é lutar, hesitar, cair e levantar. A fé dostoiévskiana nasce do confronto com a dúvida, com o silêncio de Deus e com o escândalo do sofrimento inocente. Por isso, ela nunca se apresenta como solução simples para os dilemas humanos, mas como uma escolha existencial feita no escuro, sem garantias. Crer não elimina o conflito; ao contrário, aprofunda-o.

Essa tensão constante se manifesta na contradição interior, talvez o traço mais marcante de seus personagens. Ninguém é uno, coerente ou estável. Todos abrigam impulsos opostos, desejos incompatíveis, ideias que se anulam mutuamente. O homem dostoiévskiano é um campo de batalha permanente, onde razão e instinto, fé e negação, amor e ódio coexistem sem síntese definitiva. Essa visão antecipa, de forma impressionante, concepções modernas da subjetividade fragmentada.

Não por acaso, Dostoiévski se adianta à psicanálise ao explorar a psicologia do crime décadas antes de Freud. Seus criminosos não são movidos apenas por necessidade material ou perversidade moral, mas por conflitos internos profundos, teorias delirantes, desejos inconscientes de punição e reconhecimento. O crime surge como sintoma de uma alma em ruptura, não como evento isolado.

No fundo, todas essas camadas convergem para uma mesma pergunta obsessiva: como viver quando o sentido não é dado, quando Deus se cala, quando a razão falha e a liberdade pesa demais? A busca desesperada por sentido atravessa toda a sua obra, não como uma jornada triunfante, mas como um combate contínuo.

Estilo e legado literário

Dostoiévski reinventou o romance ao introduzir a “polifonia” de perspectivas e vozes – conceito cunhado pelo filósofo e crítico soviético Mikhail Bakhtin. Cada personagem possui uma visão de mundo completa, própria, que não é reduzida pela voz do autor. Em seus romances, ideias se chocam através dos dramas e tragédias das personagens, e, ao mesmo tempo, estas personagens se entrechocam como ideias vivas, fervilhantes.

Sua técnica inclui o monólogo interior, a dramatização de estados mentais, a construção de cenas-limite e uma arquitetura emocional sempre à beira do colapso. Em Dostoiévski, o drama não é externo: é psicológico, espiritual, filosófico.

É humano, demasiado humano.

Principais obras de Fiódor Dostoiévski

Ao longo de sua carreira, Dostoiévski construiu uma obra que se desenvolve como um mergulho progressivo na complexidade moral, psicológica e espiritual do homem moderno. Em Gente Pobre, seu romance de estreia, ele inaugura esse percurso com um retrato profundamente compassivo da miséria urbana, não como espetáculo da pobreza, mas como experiência interior marcada pela vergonha, pelo desejo de reconhecimento e pela dignidade ferida dos oprimidos. A obra revela desde cedo sua capacidade singular de enxergar grandeza moral em personagens socialmente invisíveis. Já em O Duplo, essa atenção ao sofrimento humano se desloca para o interior da consciência, explorando a fragmentação da identidade, o colapso do “eu” e a angústia provocada pela incapacidade de sustentar uma imagem coerente de si mesmo diante do olhar social. O romance antecipa temas centrais da modernidade psicológica, como alienação, paranoia e despersonalização.

Com Memórias da Casa dos Mortos, a experiência do cárcere é transfigurada em reflexão moral radical. Longe de idealizar o sofrimento ou de reduzir os prisioneiros a tipos morais simples, Dostoiévski expõe a brutalidade cotidiana da vida prisional ao lado de gestos inesperados de humanidade, revelando a complexidade ética de indivíduos que sobrevivem em condições extremas. O livro marca uma inflexão decisiva em sua obra, ao substituir o sentimentalismo por uma observação dura e atenta da realidade. Em Cadernos do Subterrâneo, essa virada se aprofunda: surge o narrador hiperlúcido, ressentido e autocontraditório que inaugura o romance filosófico moderno. O “homem do subterrâneo” encarna a consciência que se volta contra si mesma, rejeitando tanto o racionalismo otimista quanto os sistemas fechados de sentido, e revelando a paralisia existencial produzida pelo excesso de lucidez.

O que o filme Taxi Driver e Memórias do Subsolo podem ter em comum?

Em Crime e Castigo, Dostoiévski leva essa investigação ao seu ponto mais intenso ao acompanhar a lenta implosão moral de Raskólnikov, um homem que tenta justificar o assassinato por meio de teorias abstratas sobre superioridade intelectual e utilidade social. O romance desmonta, passo a passo, a ilusão de que a razão pode absolver o crime, mostrando como a culpa corrói por dentro qualquer tentativa de autolegitimação moral. Já em O Jogador, o drama ético assume a forma do vício: a compulsão pelo jogo revela o desejo sem limites, à autodestruição consciente e a estranha atração pelo risco e pela ruína, expondo uma psicologia marcada pela repetição, pela vergonha e pela perda de controle sobre si.

Em O Idiota, Dostoiévski realiza uma de suas experiências literárias mais ousadas ao inserir uma figura de bondade quase absoluta em um mundo regido por vaidade, cálculo e competição. O príncipe Míchkin não fracassa por ingenuidade, mas porque sua abertura radical ao outro não encontra espaço em uma sociedade cínica e instrumentalizada. O romance questiona se a pureza moral é possível na vida social concreta ou se está condenada à destruição. Os Demônios, por sua vez, amplia o horizonte da obra ao investigar o fanatismo ideológico, o niilismo e o vazio espiritual produzidos quando ideias abstratas se tornam mais importantes do que a vida humana. Inspirado em eventos políticos reais, o romance analisa as consequências morais da absolutização das ideias e antecipa, de forma perturbadora, os desastres do extremismo moderno.

Em O Adolescente, Dostoiévski volta-se para a formação moral de um sujeito ainda instável, dilacerado entre ambição, ressentimento, desejo de reconhecimento e busca de sentido. Trata-se de uma obra menos explosiva, mas profundamente moderna, ao retratar a dificuldade de construir uma identidade sólida em um mundo moralmente fragmentado. Por fim, em Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski reúne todas essas linhas de força em um grande testamento espiritual. O romance articula fé e dúvida, liberdade e responsabilidade, razão e desejo em um vasto tribunal moral, onde nenhuma resposta é definitiva e o conflito não se resolve. Aqui, a literatura atinge seu ponto mais alto como espaço de confronto existencial, afirmando que viver é sustentar perguntas sem garantias, e não alcançar sínteses reconfortantes.

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 Por que ler Fiódor Dostoiévski hoje?

Há uma essência permanentemente inquietante na obra de Dostoiévski; inquietante porque jamais se deixa pacificar. Seus romances retornam incessantemente aos impasses fundamentais da existência – a liberdade excessiva, a culpa sem nome, o desejo que se contradiz – e colocam o homem diante de si mesmo sem proteção ou refúgio seguros. Seus personagens são lúcidos demais para viver em paz, livres demais para se esconder atrás de sistemas morais ou explicações racionais. O mal não surge como exceção monstruosa, mas como possibilidade cotidiana; a liberdade, longe de libertar, pesa, cobra e expõe.

Dostoiévski disseca a alma humana, por compaixão, por um desejo insaciável de lucidez. Desmonta justificativas, acompanha o movimento interno que vai da ideia ao abismo, da fé à dúvida, da culpa à ruptura. Sua obra permanece atual porque não oferece respostas, mas exige escolhas, e convida o leitor a encarar, sem garantias, o conflito profundo que constitui a própria condição humana: “Porque o mistério da existência humana não consiste em viver por viver, mas ter um sentido de vida.” 1Os Irmãos Karamázov.

Leia também: Dostoiévski, ensaio por Gyorgy Lukács.

  1. DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. Dois Irmãos/RS: Clube de Literatura Clássica, 2023, p. 308. ↩︎

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