As melhores sátiras da literatura têm um talento especial para nos fazer rir de coisas que, vistas de perto, não têm graça e são até constrangedoras. Com a caricatura, elas distorcem a realidade, mas apenas o suficiente para revelar contradições de outro modo permaneceriam invisíveis. O alvo pode ser uma instituição, um costume, uma ideia muito respeitada ou simplesmente algum daqueles comportamentos humanos que atravessam os séculos sem dar sinais de desaparecer.
Algumas das grandes obras da literatura são também grandes sátiras, obras que muitas vezes não são tomadas como humorísticas. Por trás de aventuras fantásticas e personagens ridículos, há escritores observando com atenção a sociedade e os seres humanos. O riso, nesses livros, vem acompanhado daquele desconforto de reconhecer, em meio ao absurdo, alguma coisa bastante familiar para nós.
O que é uma sátira?
A sátira é uma forma de olhar para a realidade por meio do riso, em geral do riso debochado. Em vez de apontar para uma contradição e explicá-la, o escritor a exagera, levando-a ao absurdo até que aquilo que parecia normal fique estranho. Uma boa sátira consegue produzir dois efeitos ao mesmo tempo: primeiro, achamos graça da situação; logo depois, percebemos que há alguma coisa bastante séria naquela piada.
O alvo da sátira não precisa ser uma pessoa determinada, em geral não é. Um autor pode voltar seu humor contra um costume social ou mesmo características muito humanas, como a vaidade, a ganância e a hipocrisia. O exagero funciona como uma lente de aumento. Ao tornar certos comportamentos maiores, mais ridículos ou mais absurdos do que seriam na vida cotidiana, a literatura nos ajuda a enxergá-los com mais clareza.
Vamos conhecer algumas das grandes sátiras da literatura. Sátiras que você pode não conhecê-las como tal:
1. O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson
O Médico e o Monstro é ser lembrado antes de tudo como uma história de terror e uma das obras mais célebres da literatura fantástica, mas o estranho experimento de Henry Jekyll também permite enxergar as contradições da sociedade vitoriana. Médico respeitado e de boa posição social, Jekyll encontra uma maneira de se transformar em Edward Hyde, figura por meio da qual consegue dar vazão a impulsos que sua identidade pública não comportaria. A separação fantástica entre os dois personagens torna visível, assim, uma divisão que já existia dentro do próprio Jekyll na distância entre aquilo que ele mostra ao mundo e aquilo que prefere manter escondido.
Stevenson leva ao extremo o desejo de separar a aparência respeitável dos impulsos considerados inaceitáveis, como se fosse possível guardar tudo o que ameaça a reputação em outra personalidade. Hyde é a materialização dessa tentativa e também de seu fracasso. Quanto mais Jekyll procura preservar intacta sua imagem social enquanto desfruta secretamente de outra existência, mais difícil se torna manter esses dois mundos separados. O exagero da transformação física ilumina o esforço para esconder partes de si mesmo a fim de corresponder ao papel que a sociedade espera.
O que Stevenson coloca em questão?
A história abre espaço para pensar em hipocrisia, repressão e no enorme peso da respeitabilidade. Em um mundo no qual a reputação importa tanto, não basta agir de determinada maneira, é preciso também parecer correto diante dos outros. Jekyll tenta resolver essa tensão criando uma fronteira absoluta entre o homem admirado publicamente e os desejos que poderiam comprometer essa imagem. O problema é que Stevenson transforma essa fronteira em algo instável, mostrando o quanto pode ser perigosa a fantasia de que certas partes da personalidade podem simplesmente ser isoladas e escondidas.
A novela não se deixa reduzir a uma única interpretação. A crítica à aparência social convive com o suspense, o horror e uma inquietação mais ampla sobre a própria natureza humana. Até que ponto é possível separar nossas diferentes inclinações? Ao transformar esse conflito interior em uma ameaça concreta e assustadora, Stevenson faz da história ao mesmo tempo um pesadelo fantástico e uma reflexão sobre aquilo que preferimos não reconhecer em nós mesmos.
2. Cândido, de Voltaire
Na sátira filosófica de Voltaire, o jovem protagonista começa sua trajetória convencido, graças aos ensinamentos de seu mestre Pangloss, de que vive no “melhor dos mundos possíveis” (uma ideia de Leibniz). O problema é que o mundo parece empenhado em demonstrar o contrário. Expulso da vida confortável que conhecia, Cândido atravessa uma sucessão inacreditável de desventuras. A cada novo episódio, torna-se mais difícil conciliar aquilo que ele vê com a explicação otimista que aprendeu a aceitar.
Voltaire transforma esse choque entre teoria e experiência em uma fonte constante de humor. As desgraças se acumulam em ritmo tão exagerado que chegam ao absurdo, mas por isso colocam em evidência questões bastante concretas. Guerras são tratadas com uma ironia que expõe sua brutalidade; perseguições religiosas revelam a distância entre princípios e práticas; e explicações filosóficas muito bem organizadas parecem cada vez mais frágeis diante do sofrimento real. Em vez de construir um tratado contra o otimismo, Voltaire coloca suas ideias à prova dentro de um mundo caótico e deixa que a própria sucessão dos acontecimentos revele suas contradições.
Por que Cândido continua divertido?
Parte da graça de Cândido está na velocidade com que tudo acontece. Voltaire não dá tempo para que o leitor se recupere de uma calamidade antes de lançar o protagonista na seguinte. Situações improváveis se sucedem como se fossem perfeitamente naturais. Esse ritmo acelerado reforça o exagero da narrativa e cria um contraste cômico entre a gravidade dos acontecimentos e a maneira ágil, muitas vezes impassível, com que eles são contados.
A ironia de Voltaire também impede que os temas mais sérios tornem a leitura pesada. Fanatismo e exploração aparecem constantemente, mas são apresentados de modo a revelar também o ridículo das justificativas usadas para explicá-los. O leitor ri porque a lógica dos personagens e das instituições se mostra cada vez mais absurda. Cândido consegue transformar grandes debates filosóficos e sociais em uma narrativa rápida, engraçada e desconcertante.
3. A Fazenda Animal, de George Orwell
Cansados da exploração do proprietário da fazenda, os animais se rebelam, expulsam os humanos e passam a administrar o lugar por conta própria. A nova sociedade nasce sob a promessa de que todos serão iguais e de que nenhum animal voltará a viver sob a dominação de outro. Aos poucos, porém, os porcos assumem posições de liderança e criam uma ordem que se distancia cada vez mais dos princípios que haviam inspirado a revolta.
A escolha de contar essa história como uma fábula permite a Orwell transformar processos políticos complexos em situações reconhecíveis. Os animais representam diferentes posições dentro da nova sociedade. Propaganda e manipulação tornam-se tão importantes quanto a força. Não basta que os porcos conquistem privilégios, é preciso convencer os demais animais de que esses privilégios são necessários, justos ou, em alguns casos, de que sempre existiram. A simplicidade da forma torna ainda mais visível a distância crescente entre a promessa de igualdade e a realidade da fazenda.
Quando a sátira fica mais séria
Essa transformação aparece de maneira especialmente engenhosa no uso da linguagem. Os princípios da revolução são reduzidos a frases fáceis de repetir, e os mandamentos escritos no celeiro, que deveriam funcionar como uma referência comum para todos, começam a sofrer pequenas alterações. Quando algum animal desconfia de que uma regra era diferente, sua própria memória é colocada em dúvida. O que está escrito passa a valer como prova daquilo que supostamente sempre foi verdade. Assim, Orwell mostra que controlar a informação implica alterar a maneira como uma comunidade se lembra deles e interpreta aquilo que está diante de seus olhos.
Orwell não precisa abandonar os animais falantes nem interromper a narrativa para explicar os mecanismos de propaganda, pois eles aparecem funcionando dentro da própria história. Uma frase repetida até deixar pouco espaço para discussão, uma regra discretamente modificada ou uma explicação convincente para um novo privilégio dizem mais do que uma longa exposição sobre poder. A sátira se torna mais sombria conforme essas pequenas distorções se acumulam, porque a igualdade que deu origem à revolução é aos poucos esvaziada pela linguagem usada para defendê-la.
4. O Mestre e Margarita, de Mikhaíl Bulgákov
No romance de Mikhaíl Bulgákov, Woland, uma figura misteriosa que logo se revela o Diabo, chega a Moscou acompanhado por uma comitiva nada discreta. A partir daí, a cidade é tomada por espetáculos de magia negra e acontecimentos que desafiam qualquer explicação razoável. O fantástico dá a Bulgákov a liberdade necessária para observar a realidade por um ângulo ainda mais estranho e muito mais engraçado.
Diante de Woland e seus companheiros, comportamentos bastante humanos começam a aparecer com muita nitidez. Oportunismo, medo e preocupação com prestígio vêm à tona assim que os personagens são colocados diante da possibilidade de obter dinheiro, vantagens ou reconhecimento. O sobrenatural funciona como um teste, ou uma tentação. Woland oferece as circunstâncias para que as fraquezas se revelem. É assim que Bulgákov transforma demônios, um gato gigante e truques impossíveis em instrumentos para observar a sociedade russa.
O humor de Bulgákov
Bulgákov encontra humor no encontro entre o fantástico e o cotidiano, sobretudo quando forças sobrenaturais esbarram em toda uma máquina burocrática que insiste em continuar funcionando mesmo quando o impossível acontece diante dela. Ao mesmo tempo, sua sátira ultrapassa instituições específicas: a vaidade dos artistas e a disposição para seguir conveniências são fraquezas que não pertencem apenas a uma época ou a um regime.
O romance acompanha o amor entre o Mestre e Margarita e, em outra linha narrativa, retorna à antiga Jerusalém para contar o encontro entre Pôncio Pilatos e Yeshua. O resultado é um livro capaz de passar de uma cena farsesca e caótica para uma reflexão sobre criação literária sem deixar de parecer a mesma obra.
5. As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift
As Viagens de Gulliver muitas vezes chega aos leitores como uma história de aventura, cheia de viagens a lugares que não existem, mas por trás dessa aparência está uma das grandes sátiras da literatura. Jonathan Swift acompanha Lemuel Gulliver por diferentes sociedades imaginárias, entre elas a dos minúsculos habitantes de Lilipute e a dos gigantes de Brobdingnag. Cada nova viagem muda as proporções do mundo e, com elas, o ponto de vista do protagonista sobre aquilo que parecia familiar.
Essas mudanças de escala são também uma maneira de colocar as pretensões humanas em perspectiva. Em Lilipute, pessoas minúsculas envolvem-se em disputas políticas tratadas com enorme solenidade. Em Brobdingnag, Gulliver é quem se torna insignificante diante de uma sociedade de gigantes. Em outras viagens, encontra maneiras de pensar ainda mais estranhas. Swift usa essas situações improváveis para observar indiretamente a sociedade europeia de seu tempo.
Quando o fantástico vira crítica
Gulliver precisa se afastar de seu próprio mundo para conseguir enxergá-lo de outra maneira e o leitor faz a mesma viagem. Ao inventar povos com tamanhos, costumes e valores muito diferentes, Swift transforma aquilo que conhecemos em objeto de comparação. Uma rivalidade política parece razoável quando vista de dentro, mas bastante ridícula quando reproduzida entre homens minúsculos. Da mesma forma, hábitos considerados naturais pelos europeus parecem absurdos quando explicados diante de alguém que não compartilha das mesmas certezas.
Quanto mais estranhas parecem as sociedades visitadas por Gulliver, mais percebemos que Swift está falando também da nossa própria tendência de considerar normais os costumes aos quais estamos habituados. Seus povos extraordinários funcionam como espelhos deformados, pois eles exageram alguns traços da realidade para torná-los mais fáceis de reconhecer. A viagem para terras distantes se torna uma maneira de fazer o leitor voltar os olhos para o mundo em que já vive.
O que essas cinco sátiras têm em comum?
À primeira vista, é mais fácil perceber as diferenças entre essas cinco obras do que aquilo que elas têm em comum. Foram escritas em épocas e países distintos e voltam seus olhos para problemas bastante diferentes. Ainda assim, todas recorrem, em maior ou menor medida, a recursos satíricos, como ironia, exagero e inversão, para fazer o leitor enxergar a realidade por outro ângulo. Stevenson transforma a respeitabilidade e suas contradições em uma perturbadora divisão do indivíduo; Voltaire exagera as desventuras de Cândido para testar certezas filosóficas e sociais; Orwell escolhe a simplicidade de uma fábula para mostrar como o poder corrompe os ideais que afirma defender.
Bulgákov, por sua vez, faz o sobrenatural invadir o cotidiano para revelar tanto os absurdos da sociedade quanto fraquezas humanas muito familiares. Swift envia Gulliver a terras impossíveis para que pretensões humanas possam ser vistas de fora. O parentesco entre essas obras, portanto, está no gesto de criar uma distância entre o leitor e aquilo que ele considera normal, até que o normal pareça absurdo. Cada autor, como é evidente, produz essa distância à sua maneira. A sátira assume formas muito diferentes e aqui acabamos de expor cinco exemplos disso. Às vezes, a sátira provoca gargalhadas, às vezes constrangimento e, quando se trata de uma obra-prima, faz as duas coisas ao mesmo tempo.
Quais são a importância e a função da sátira para a Literatura?
A sátira transforma o humor em uma forma de conhecimento. Ao levar determinada lógica até às últimas consequências, ela faz com que o leitor deixe de operar como que no “piloto automático” e comece a pensar sobre seu próprio comportamento. A partir daí, os vícios são mais facilmente reconhecidos, sobretudo quando a obra em questão os torna ridículos. Muitas vezes não é confortável rir de uma sátira, porque estaremos rindo de nós mesmos. Em todo o caso, é libertador.
Uma boa sátira não é como uma fábula e não deve ficar oferecendo lições de moral. Afinal de contas, a sátira conta com o humor e um escritor jamais explica por que o leitor deveria rir com sua obra. A capacidade da sátira de fazer conhecer por meio do humor explica por que o gênero atravessa épocas tão diferentes. Mudam os costumes, as instituições e as ideias dominantes, mas s contradições humanas que alimentam a sátira permanecem. As grandes sátiras fazem rir, mas nunca deixam o leitor em uma posição confortável. Há sempre uma reflexão, uma mudança, ainda que seja interior. Ao transformar o familiar em estranho e o sério em ridículo, a literatura encontra uma maneira eficaz de pensar o mundo.