O que a literatura pode te ensinar? 7 lições que os grandes livros revelam

A literatura pode mudar nossa forma de pensar? Conheça 7 lições que os grandes clássicos nos convidam a descobrir.

O que a literatura pode ensinar a alguém que vive em um mundo tão diferente daquele em que os grandes clássicos foram escritos? Afinal, que interesse pode ter a história de um príncipe dinamarquês, de um cavaleiro espanhol que confunde moinhos com gigantes ou de um estudante russo atormentado por um crime cometido há quase dois séculos?

A distância histórica pode ser enorme, mas os conflitos desses personagens continuam reconhecíveis. Ao ler suas histórias, encontramos experiências que dificilmente conheceríamos por conta própria e descobrimos maneiras diferentes de compreender aquilo que vivemos. Os grandes livros também nos ensinam a formular perguntas que talvez nunca tivéssemos considerado.

O que a literatura pode ensinar?

A literatura permite conhecer pessoas, sociedades e conflitos por meio de experiências imaginárias construídas com palavras. Um romance pode apresentar a vida inteira de um personagem, incluindo seus pensamentos mais íntimos, enquanto uma tragédia pode concentrar em poucos acontecimentos um conflito que permanece aberto à reflexão durante séculos.

O que a literatura pode ensinar depende também da atenção e da experiência de quem lê. Uma mesma obra pode provocar reações diferentes em leitores distintos e até revelar aspectos novos numa segunda leitura. Entre essas possibilidades, há sete aprendizagens que ajudam a compreender por que os grandes livros continuam merecendo nossa atenção.

1. A literatura ensina a compreender melhor o ser humano

Na vida cotidiana, conhecemos as pessoas sobretudo por aquilo que dizem e fazem. Podemos imaginar suas intenções, mas não temos acesso ao raciocínio que as levou a determinada decisão.

Um romance pode nos oferecer esse acesso. Em Crime e Castigo, de Dostoiévski, Raskólnikov assassina uma senhora agiota convencido de que pessoas extraordinárias teriam o direito de ultrapassar os limites morais comuns. Entretanto, a experiência do crime revela consequências e expõe conflitos que ele próprio não estava ciente.

O leitor conhece suas justificativas, seu orgulho, seu medo e os efeitos da culpa sobre seu comportamento. Compreender como Raskólnikov pensa não exige que aceitemos suas ideias. Pelo contrário, permite examinar com maior precisão os mecanismos pelos quais uma pessoa tenta justificar seus próprios atos.

2. A literatura ensina a olhar o mundo por outras perspectivas

Todo relato depende, em alguma medida, da posição de quem conta a história. Uma mesma situação pode parecer admirável, ridícula ou vergonhosa conforme a pessoa que a descreve.

Machado de Assis explora essa possibilidade em Memórias Póstumas de Brás Cubas. O narrador decide contar sua vida depois de morto e, livre das preocupações dos vivos, comenta seus relacionamentos, suas ambições e seus fracassos com uma ironia extraordinária.

Mas Brás Cubas também é vaidoso e interessado. Muitas vezes, aquilo que revela involuntariamente sobre si é mais significativo do que suas explicações.

Essa experiência ensina o leitor a desconfiar das aparências e a considerar a influência de quem apresenta os acontecimentos. Afinal, conhecer uma versão dos fatos ainda está longe de conhecer tudo o que aconteceu.

3. A literatura ensina que as pessoas são contraditórias

Uma pessoa pode amar profundamente alguém e, ao mesmo tempo, agir de maneira cruel. Pode defender valores elevados e fracassar justamente quando chega a ocasião de praticá-los.

Heathcliff, personagem de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, oferece um exemplo particularmente perturbador. Seu amor por Catherine é intenso, mas esse sentimento convive com um ressentimento capaz de destruir a vida de outras pessoas.

A força do personagem está nessa combinação desconcertante. Seu sofrimento ajuda a compreender algumas de suas atitudes, embora esteja longe de justificá-las.

Ao apresentar personalidades assim, a literatura recorda que os sentimentos humanos nem sempre seguem uma lógica coerente. E essa percepção pode tornar nossos julgamentos menos apressados, sem que precisemos abandonar a distinção entre o bem e o mal.

4. A literatura ensina a lidar com a dúvida

Algumas perguntas resistem a explicações rápidas, mesmo quando dedicamos anos a estudá-las. O sofrimento dos inocentes, a existência de Deus e a liberdade humana estão entre as questões que perpassam a história da filosofia e da literatura.

Em Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski apresenta Ivan Karamázov, um intelectual atormentado pela existência do sofrimento, sobretudo o das crianças. Seus questionamentos dão origem a discussões que ocupam algumas das páginas mais importantes do romance.

Dostoiévski desenvolve essas questões por meio de personagens que possuem convicções e experiências muito diferentes. Assim, o leitor precisa considerar argumentos que se confrontam e avaliar suas consequências.

A literatura oferece a oportunidade de examinar perguntas difíceis sem exigir que todas sejam resolvidas inteiramente, antes as explora em todas as suas fundamentações e consequências para que sejam tratadas na vida real com a devida atenção.

5. A literatura ensina a perceber melhor a passagem do tempo

Durante muitos anos, Ivan Ilitch acreditou ter levado uma vida correta. Conseguiu uma posição respeitável, progrediu na carreira e procurou cumprir aquilo que a sociedade esperava dele.

Entretanto, em A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, uma doença grave obriga o personagem a reconsiderar sua existência. Diante da possibilidade de morrer, as conquistas que antes lhe pareciam tão importantes adquirem outro significado.

O leitor observa como uma vida inteira pode ser reavaliada à luz de seus últimos acontecimentos.

A literatura também modifica nossa percepção do tempo durante a leitura. Em algumas horas, podemos conhecer décadas de uma existência, perceber as consequências tardias de certas decisões e compreender relações que os próprios personagens demoraram anos para reconhecer.

6. A literatura ensina a conviver com a complexidade

Muitas decisões envolvem deveres que entram em conflito. A dificuldade está em reconhecer o valor de cada um deles e compreender as consequências de nossas escolhas.

Na tragédia Antígona, de Sófocles, a protagonista desafia a ordem do rei Creonte para sepultar o próprio irmão. Antígona considera o funeral um dever religioso e familiar, enquanto Creonte pretende preservar a autoridade das leis da cidade.

A peça apresenta esse confronto e desenvolve suas consequências trágicas, mostrando também os erros cometidos por Creonte ao insistir em sua decisão.

O leitor encontra, então, um problema que exige distinguir princípios, responsabilidades e circunstâncias. Obras dessa natureza exercitam nossa capacidade de examinar situações difíceis sem reduzi-las a explicações convenientes.

7. A literatura ensina a prestar atenção à linguagem

As histórias dependem também da maneira como são contadas. Uma palavra escolhida com cuidado, uma ironia discreta ou uma mudança na posição do narrador podem alterar profundamente nossa interpretação.

Machado de Assis, por exemplo, frequentemente permite que seus personagens revelem muito mais do que pretendiam dizer. Suas frases exigem atenção porque o sentido pode depender justamente da diferença entre a intenção do narrador e aquilo que percebemos em suas palavras.

Em Guimarães Rosa, a própria língua ganha possibilidades inesperadas, graças à combinação de expressões populares, invenções verbais e construções sintáticas pouco habituais.

Esses e outros autores nos levam a perceber como o ritmo, a sonoridade e as relações entre as palavras carregam diferentes significados. Com a prática, adquirimos maior sensibilidade para reconhecer nuances de sentido que uma leitura apressada deixaria escapar.

A literatura ensina alguma coisa sem dar lições?

Seria estranho procurar em Dom Quixote uma lista de recomendações para viver melhor. Cervantes apresenta as aventuras de um homem que interpreta a realidade segundo os livros de cavalaria que leu, e dessas situações surgem inúmeras possibilidades de reflexão.

Uma obra literária pode proporcionar conhecimento sem formular uma conclusão moral explícita. Muitas vezes, o aprendizado resulta da observação dos acontecimentos e da relação entre as escolhas dos personagens e suas consequências.

Perguntar o que a literatura pode ensinar faz o leitor reconhecer que a interpretação de uma história pode ser muito mais rica do que qualquer ensinamento isolado retirado dela, presente no livro de maneira mais categórica.

Por que os clássicos ainda podem nos ensinar?

A Odisseia foi composta numa sociedade muito distante da nossa. Seus personagens convivem com deuses, enfrentam monstros e obedecem a costumes que hoje precisam de explicação.

Mesmo assim, a história de Odisseu continua despertando interesse porque sua tentativa de retornar para casa envolve sentimentos e dificuldades reconhecíveis, como a saudade, a fidelidade e o desejo de reencontrar a família.

A permanência dos clássicos está relacionada a essa combinação entre particularidade histórica e experiência humana. São obras que nos permitem conhecer mundos desaparecidos ao mesmo tempo que tratam de questões que continuam presentes.

O que aprendemos quando lemos sobre personagens diferentes de nós?

Conviver com pessoas que possuem valores muito diferentes dos nossos pode ser difícil, sobretudo quando desconhecemos as experiências que deram origem às suas convicções.

A literatura oferece a possibilidade de observar essas diferenças com mais atenção. Podemos conhecer as condições de vida de uma pessoa de outra época, perceber os obstáculos que enfrenta e compreender por que determinadas decisões lhe parecem razoáveis.

Isso não garante que todo leitor se torne mais compreensivo. Entretanto, a disposição de considerar seriamente uma experiência alheia pode ser exercitada durante a leitura, inclusive quando discordamos profundamente do personagem.

Ler literatura muda a maneira como vemos a vida?

É difícil determinar o efeito de um livro sobre a vida de alguém. Uma leitura pode provocar entusiasmo imediato e depois ser esquecida, enquanto outra permanece na memória durante décadas.

Há também livros que adquirem novos significados conforme envelhecemos. Uma história sobre conflitos familiares, por exemplo, pode ser interpretada de maneira muito diferente antes e depois da experiência de criar filhos.

A influência da literatura depende dessa relação entre o texto e a história pessoal do leitor. Ao longo dos anos, as leituras podem modificar nossos interesses e a atenção que dedicamos a determinadas situações.

Como aproveitar melhor o que a literatura tem a ensinar?

Uma boa maneira de aproveitar os grandes livros é ler sem pressa e prestar atenção àquilo que o autor efetivamente escreveu.

Durante a leitura, vale perguntar por que um personagem tomou determinada decisão, se o narrador merece confiança e como um acontecimento modifica nossa compreensão dos episódios anteriores.

Também é útil retornar a passagens difíceis, observar a construção das frases e conversar sobre interpretações diferentes. Algumas obras exigem conhecimentos históricos ou culturais que podem ser adquiridos com o auxílio de comentários e boas edições.

A releitura merece atenção especial: um livro conhecido pode oferecer descobertas inesperadas quando voltamos a ele depois de alguns anos.

A literatura não precisa ter uma utilidade imediata

Vivemos cercados de atividades cuja importância é normalmente medida pelos resultados práticos e materiais que produzem. Nesse ambiente, a leitura de um romance pode parecer pouco proveitosa, sobretudo quando não existe uma finalidade profissional ou acadêmica.

Entretanto, seria empobrecedor avaliar uma obra de arte apenas por suas aplicações práticas.

Uma história pode despertar prazer, curiosidade, admiração ou desconforto. Podemos gostar de uma descrição pela beleza de suas palavras ou recordar uma cena porque ela expressou algo que conhecíamos sem conseguir formular claramente.

Essas experiências possuem valor próprio, mesmo quando não sabemos exatamente o que fazer com elas.

O que a literatura pode ensinar sobre nós mesmos?

Às vezes, o comportamento de um personagem provoca irritação porque reconhecemos nele um defeito que preferíamos ignorar em nós mesmos.

Em outras ocasiões, descobrimos que compreendemos melhor uma atitude que antes condenaríamos sem hesitação. Os livros podem revelar preconceitos, desejos e hábitos que dificilmente examinamos espontaneamente.

Esse reconhecimento só se dá diante de alguma sinceridade. É possível rejeitar tudo aquilo que contraria nossas convicções, mas também podemos aproveitar a leitura para reconsiderar opiniões antigas.

Uma das experiências mais interessantes da literatura é descobrir que alguns personagens nos revelam melhor do que gostaríamos.

Conclusão: o que a literatura pode te ensinar?

Os grandes livros oferecem muitas oportunidades de aprendizado porque apresentam a experiência humana em sua variedade. Por meio deles, conhecemos diferentes personalidades, examinamos decisões difíceis, percebemos a influência do tempo e descobrimos possibilidades da linguagem que desconhecíamos.

Esse é o grande ganho geral que a literatura proporciona.

Mas cada leitor estabelece uma relação particular com essas obras, conforme suas experiências, seus interesses e sua disposição para compreender aquilo que encontra.

Sendo assim, o que a literatura pode ensinar é também uma pergunta aberta. A variedade de experiências presentes nos livros é imensa, assim como são diferentes as vidas das pessoas que os leem. Seria impossível determinar antecipadamente o que cada leitor aprenderá numa obra, quais aspectos despertarão sua atenção ou que significado aquela leitura terá em sua vida.

E é ótimo que seja assim. Há sempre alguma coisa de pessoal a descobrir nos livros que ainda não lemos e também naqueles que conhecemos bem. Vale a pena, portanto, continuar lendo as obras que despertam nosso interesse, voltar às que mais nos agradaram e manter esse convívio com a literatura ao longo da vida toda, o mais que se puder. 

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