A teoria literária é um conjunto de ferramentas que nos ajuda a compreender como os textos literários, por assim dizer, “funcionam”, isto é, como a linguagem literária é, neles, formulada. Qualquer um que pesquise literatura, e isso vai desde os editores de livros até os acadêmicos, utiliza obrigatoriamente da teoria literária, mas ela é muito útil também para o leitor comum. Qualquer um pode utilizá-la para perceber melhor as escolhas presentes em um poema, conto ou romance e enriquecer sua experiência de leitura.
Termos como “narrador”, “personagem”, “enredo” e “figuras de linguagem” pertencem à teoria literária e descrevem elementos que reconhecemos intuitivamente ao ler ou até ao contar uma história cotidiana. Ao longo deste artigo, vamos nos deter nos principais conceitos de teoria literária e explicá-los.
O que é teoria literária?
Uma forma de compreender a literatura
A teoria literária é o campo de estudos que investiga o que caracteriza a literatura, como uma obra é construída e de que maneira ela produz significados. Em vez de observar apenas o assunto de um romance ou poema, ela também considera a linguagem literária, a organização da narrativa, a relação entre as partes do texto e o papel desempenhado pelo leitor.
Esse campo também procura compreender por que determinados livros continuam sendo lidos muito tempo depois de sua publicação. Uma obra pode permanecer relevante porque trata de conflitos ainda reconhecíveis, porque apresenta uma construção artística marcante ou porque recebe novas interpretações à medida que a sociedade muda. Dom Casmurro, por exemplo, não desperta interesse apenas pelo dilema da traição (recentemente, o “Capitu traiu ou não traiu?”, que já era uma anedota, virou até “meme” em redes sociais voltadas para a leitura). A maneira parcial e insegura como os acontecimentos são narrados por Bentinho oferece uma reflexão sobre a confiabilidade no narrador.
A teoria não pode, evidentemente, oferecer uma resposta definitiva para cada livro. A linguagem literária e, por consequência, a obra literária é polissêmica. Assim, a teoria não pode oferecer uma única interpretação correta, nem mesmo esclarecer qual seria o verdadeiro final de uma narrativa que terminou em aberto, porém a teoria oferece instrumentos para que o leitor observe o texto com mais atenção e sustente sua leitura com argumentos. Os conceitos de teoria literária funcionam como diferentes formas de investigação. Uma análise pode se concentrar na estrutura da obra, na linguagem, no contexto histórico ou até mesmo na participação do leitor na construção dos sentidos. A chamada “Estética da Recepção”, por exemplo, trata da última abordagem.
Qual a diferença entre teoria literária, crítica literária e história da literatura?
Embora estejam relacionados, esses três campos observam a literatura de maneiras diferentes. Em uma explicação simples, a teoria literária fornece conceitos e perspectivas que ajudam a formular perguntas sobre os textos. Esses instrumentos orientam a observação e ajudam o leitor a construir interpretações fundamentadas.
A crítica literária, por sua vez, utiliza esses conceitos, de forma explícita ou não, para interpretar obras específicas. Um estudo sobre o isolamento de Gregor Samsa e as reações de sua família em A metamorfose, de Franz Kafka, por exemplo, pertence ao campo da crítica porque analisa um texto determinado, observa suas escolhas narrativas e apresenta argumentos sobre seus possíveis sentidos. Até aqui, é bem fácil distinguir a teoria da crítica. A teoria apresenta as ferramentas da análise, a crítica é o resultado da análise.
Já a história da literatura acompanha as transformações da produção literária ao longo do tempo. Ela estuda as diferentes escolas literárias procurando compreender como se relacionam entre si e com seus contextos históricos e culturais. É esse campo que investiga, por exemplo, a passagem do Romantismo para o Realismo, as características associadas a cada movimento e as mudanças ocorridas na mídia literária, isto é, na maneira de escrever, publicar e ler literatura.
Os conceitos fundamentais da teoria literária
Texto literário
O texto literário é uma criação verbal em que a forma de dizer possui tanta importância quanto aquilo que é dito. Em um conto, poema ou romance, a escolha das palavras e a organização do texto é tão importante quanto o sentido. Se a mesma história é contada de duas maneiras diferentes, temos dois textos literários diferentes. Obviamente, isso não significa que exista uma característica isolada capaz de transformar automaticamente qualquer escrito em literatura; trata-se de um conjunto de elementos. É necessário que a obra seja construída de antemão com o trabalho de linguagem que caracteriza a literatura.
A diferença em relação ao texto informativo está principalmente em seus objetivos. Uma notícia, um manual ou um artigo científico procura transmitir informações sobre o mundo da forma mais clara e verificável possível. Já uma obra literária é polissêmica, ela admite muitos sentidos e não só pode como deve ser interpretada de várias maneiras.
Os textos não literários precisam sacrificar a beleza pela funcionalidade, não é bem-vindo no texto funcional uma pluralidade de sentidos. Em nosso dia a dia, usamos muitos textos não literários. Por exemplo, quando vamos à farmácia e entregamos a receita do remédio ao vendedor, entregamos a ele um texto não literário que tem uma finalidade muito específica: a de apontar um remédio e, em alguns casos, conceder a permissão para que aquele remédio seja vendido. Já imaginou se, em vez de uma receita, entregássemos um soneto escrito pelo médico? Um soneto que questiona: “o que é a dor?” Será que ela pode ser tratada com dipirona? Será que a dipirona não é o símbolo de uma sociedade anestesiada, que não tolera o incômodo? O vendedor poderia até voltar com uma reflexão sobre a vida, mas não com o remédio que você precisava comprar.
No texto literário, metáforas e outras figuras de linguagem ampliam as possibilidades de sentido. Em O Pequeno Príncipe, por exemplo, a rosa representa a responsabilidade assumida por alguém, o afeto que nasce dessa possibilidade. É essa abertura para diferentes associações que permite ao texto literário ultrapassar a comunicação imediata e oferecer novas experiências a cada leitura.
Autor e narrador
O autor é a pessoa real que escreve e publica a obra. Já o narrador é a voz criada para contar a história dentro do texto. Mesmo quando a narrativa utiliza a primeira pessoa, não devemos concluir que as opiniões, experiências ou sentimentos apresentados pertencem ao escritor. O autor constrói o universo da obra; o narrador é um dos recursos escolhidos para apresentá-lo ao leitor.
Em A hora da estrela, por exemplo, Clarice Lispector é a autora, mas quem conta a história de Macabéa é Rodrigo S. M., um intelectual marxista criado para narrar o romance. Portanto, quando Rodrigo comenta seus sentimentos, suas dúvidas e as dificuldades de narrar a vida da personagem, estamos ouvindo a voz dele, que é outra personagem, e não uma declaração direta de Clarice. Muitas vezes o narrador é um personagem com valores muito diferentes dos do autor.
Uma atriz pode interpretar uma personagem sem compartilhar suas opiniões ou ter vivido suas experiências. De modo semelhante, o autor pode escrever por meio da voz que não é a sua. William Faulkner, em O som e a fúria, apresentou narradores com deficiências intelectuais e em colapso psicológico; do mesmo modo, Lygia Fagundes Telles no conto WM apresenta um narrador homem, esquizofrênico e em surto, até com desorganização da fala. São exemplos brilhantes da capacidade do escritor de sair de si e explorar imaginativamente experiências que ele nunca poderia ter.
Personagem
A personagem é o ente que participa dos acontecimentos de uma narrativa. Pode ser representada como uma pessoa, um animal, uma criatura fantástica ou até um objeto humanizado, o importante é que tenha consciência. Conhecemos suas características por meio de suas ações, falas, pensamentos, descrições e relações com os demais participantes da história.
O protagonista é a personagem central, aquela em torno de quem se desenvolvem os principais conflitos da narrativa. Isso não significa que seja necessariamente uma pessoa boa ou um herói exemplar. O antagonista, por sua vez, é quem se opõe aos objetivos do protagonista ou cria obstáculos para suas ações. Ele também não precisa ser obrigatoriamente um vilão.
As personagens secundárias possuem menor destaque, mas não são necessariamente pouco importantes. Nenhuma personagem em um bom texto narrativo é dispensável, todas têm de cumprir alguma função, por menor que seja. Personagens dispensáveis são excessos e contam como ponto negativo para a obra. Ao comparar as escolhas de diferentes personagens, o leitor pode perceber quais valores a obra coloca em discussão. Uma personagem secundária pode funcionar como contraste para o protagonista, mostrando caminhos que ele poderia seguir ou características que ainda precisa desenvolver.
Vamos a um exemplo. Em Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas, d’Artagnan ocupa a posição de protagonista, enquanto Milady de Winter atua como uma das principais antagonistas. Athos, Porthos e Aramis são seus companheiros centrais e personagens como Planchet e Constance Bonacieux também contribuem para o desenvolvimento da ação. As relações entre elas ajudam a obra a explorar temas como amizade, lealdade, honra, ambição e traição.
Enredo
O enredo é a organização dos acontecimentos que formam uma narrativa. Podemos, de início, considerá-lo como “o conjunto de fatos da narrativa”. Essa definição, embora didática, é limitadora, pois o enredo também envolve as relações de tempo, causa e consequência estabelecidas entre os fatos. Vamos a um exemplo. Dizer que “um homem recebeu uma carta e depois saiu de casa” apresenta uma sequência; explicar que ele saiu porque a carta o convocava para resolver um problema envolve uma conexão entre os fatos. Ambos os fatores pertencem ao enredo, que investiga a relação entre os fatos de uma narrativa.
Uma forma simples de observar essa organização é identificar cinco partes. A situação inicial apresenta as personagens e as circunstâncias em que elas vivem. O conflito surge quando algum acontecimento rompe o equilíbrio inicial. Durante o desenvolvimento, as personagens agem diante desse problema, e suas decisões criam novas dificuldades ou aumentam a tensão. O clímax é o momento no qual o conflito atinge seu ponto de maior intensidade ou sofre uma mudança irreversível. Por fim, o desfecho mostra as consequências dessa decisão e estabelece a nova situação das personagens. Entre o desenvolvimento e o clímax não há propriamente mais uma parte, mas um ponto de mudança, chamado de turning point ou peripécia, esse ponto marca a mudança do rumo dos acontecimentos. Até aquele ponto, a história parecia caminhar para um final x, mas depois daquele ponto, a história caminha para um final y.

No conto A cartomante, de Machado de Assis, a situação inicial apresenta a amizade entre Vilela e Camilo e o relacionamento secreto entre Camilo e Rita, esposa de Vilela. O conflito se intensifica quando surgem cartas anônimas e Camilo passa a temer que a traição tenha sido descoberta. No desenvolvimento, sua insegurança cresce, até que ele procura uma cartomante e recebe dela uma previsão tranquilizadora, temos a peripécia. O clímax ocorre quando Camilo chega à casa de Vilela e encontra Rita morta; logo depois, ele também é assassinado. O desfecho confirma que a segurança prometida pela cartomante era ilusória.
Chamamos essa divisão de Pirâmide de Freytag, modelo criado no século XIX pelo escritor e crítico alemão Gustav Freytag para estudar principalmente a estrutura de dramas em cinco atos. Em sua formulação, a ação se eleva da introdução ao clímax e depois desce em direção à catástrofe ou conclusão. Versões posteriores adaptaram o esquema para etapas como exposição, ação crescente, clímax, ação decrescente e resolução. Assim, temos o gráfico usado hoje em dia.
A pirâmide pode ajudar o leitor a visualizar como um conflito se desenvolve e como a tensão aumenta ou diminui. Ela não deve ser tratada como uma fórmula mágica para compreender enredos. Muitos gêneros literários apresentam enredos fragmentados, circulares, compostos de histórias paralelas ou organizados fora da ordem cronológica. Por isso, o modelo funciona melhor como um instrumento inicial de análise literária que requer adaptação conforme as exigências do objeto literário que se está investigando.
Tempo e espaço
O tempo cronológico corresponde à passagem do tempo que pode ser medida e organizada em uma sequência: horas, dias, meses, anos, começo, meio e fim. Em uma narrativa construída dessa maneira, os acontecimentos tendem a ser apresentados na ordem em que ocorreram. Mesmo um sonho, se contado simplesmente com início, meio e fim, possui tempo cronológico. No entanto, a literatura pode alterar essa sequência, antecipando fatos, retomando episódios do passado ou resumindo vários anos em poucas linhas. Os estudos da narrativa também observam a diferença entre o tempo dos acontecimentos e a maneira como o texto escolhe apresentá-los.
Já o tempo psicológico está relacionado à maneira subjetiva como as personagens ou o narrador experimentam a passagem do tempo. Alguns minutos de espera podem parecer intermináveis e ocupar várias páginas, enquanto décadas inteiras podem ser recordadas rapidamente. Associações de ideias também podem interromper a ordem cronológica. Esse é o tempo dos movimentos da consciência, o passado reaparece no presente, e um acontecimento breve pode adquirir grande duração por causa de sua importância emocional.
Em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, Riobaldo conta, já mais velho, episódios de sua vida como jagunço. Suas lembranças não surgem como uma sequência perfeitamente ordenada: ele retorna a certos acontecimentos, antecipa outros e interrompe o relato para refletir sobre Diadorim, o bem, o mal e a possível existência do diabo. O tempo da narrativa é, portanto, organizado pela memória e pelas dúvidas do narrador, e não pela cronologia dos fatos. Dizemos, então, que o tempo psicológico predomina sobre o cronológico.
O espaço, por sua vez, é o ambiente em que os acontecimentos ocorrem, mas sua função vai além de servir de cenário. Uma casa fechada pode produzir sensação de aprisionamento; uma cidade movimentada pode acentuar a solidão; uma estrada pode representar mudança ou busca. O ambiente pode impor obstáculos, influenciar o comportamento das personagens e revelar aspectos sociais, históricos e culturais da narrativa.
No romance de Guimarães Rosa, por exemplo, o sertão interfere diretamente nas viagens, batalhas e decisões das personagens. Rios e regiões áridas determinam os caminhos possíveis e os perigos enfrentados pelos jagunços. Ao mesmo tempo, esse espaço geográfico adquire um valor simbólico: a travessia pelo sertão acompanha as incertezas e transformações interiores de Riobaldo.
Foco narrativo
O foco narrativo é a perspectiva pela qual os acontecimentos são apresentados ao leitor. Ele determina quem conta a história, quais informações podem ser reveladas e de que modo enxergamos as personagens e os conflitos. A escolha dessa perspectiva nunca é neutra: uma mesma situação pode parecer injusta, engraçada ou ameaçadora dependendo da voz que a relata. Em narratologia (a parte da teoria literária que estuda as narrativas), o ponto de vista é entendido justamente como a maneira pela qual a posição, os valores e o conhecimento do narrador ou das personagens influenciam a representação dos fatos.
O narrador em primeira pessoa utiliza palavras como “eu” e “meu” e participa da história como personagem. Pode ser o protagonista ou alguém que observa os acontecimentos de perto. Como conhece apenas aquilo que viveu, presenciou ou descobriu, sua visão costuma ser limitada e subjetiva. Em São Bernardo, de Graciliano Ramos, Paulo Honório narra a própria trajetória, desde sua ascensão econômica até o casamento com Madalena. O leitor conhece os fatos por meio de sua voz e de seus valores, mas também precisa perceber aquilo que ele não compreende ou não consegue admitir sobre si mesmo.
O narrador em terceira pessoa conta a história empregando formas como “ele” e “ela” e não se apresenta como participante dos acontecimentos. Isso não significa, porém, que conheça obrigatoriamente tudo. Ele pode acompanhar de perto apenas uma personagem ou alternar entre diferentes perspectivas. Em Vidas secas, também de Graciliano Ramos, a narração ocorre em terceira pessoa, mas se aproxima sucessivamente de Fabiano, Sinhá Vitória, dos meninos e da cachorra Baleia. A morte de Baleia é, inclusive, uma das cenas mais comoventes de toda a literatura brasileira. O narrador em terceira pessoa observa a família de fora e, ao mesmo tempo, tem acesso a seus pensamentos, desejos e percepções por meio de recursos como o discurso indireto livre. Narrador em terceira pessoa não significa necessariamente que ele é onisciente e alguns escritores brincam com esse fato. Em Falsos Moedeiros, de André Gide e em O Machete, de Machado de Assis, o narrador está em terceira pessoa, não é necessariamente uma personagem e confessa suas limitações.
Já o narrador onisciente é aquele que sabe mais do que as personagens. Ele pode conhecer acontecimentos distantes, revelar pensamentos e sentimentos de diferentes pessoas, explicar fatos do passado e, em alguns casos, antecipar o que ainda ocorrerá. É comum dizer em teoria literária que o narrador onisciente é “autoritário”, porque tudo o que ele disser é verdade e não cabe, na análise literária, interpretação sobre suas intenções. Em Anna Kariênina, de Liev Tolstói, o narrador transita entre a vida interior de Anna, Vronski, Karenin, Liévin e outras personagens. Esse amplo conhecimento permite apresentar um mesmo conflito sob diversos ângulos e mostrar contradições que nenhuma personagem perceberia sozinha.
É importante observar que “narrador em terceira pessoa” e “narrador onisciente” não são categorias opostas. A terceira pessoa indica a forma gramatical usada para contar; a onisciência indica o alcance do conhecimento dessa voz. Um narrador em terceira pessoa pode saber tudo, acompanhar apenas uma personagem ou restringir-se ao que poderia ser observado externamente.
Tema e mensagem
O tema corresponde ao assunto central ou a uma ideia importante desenvolvida pela obra. Amor, morte, liberdade, desigualdade, memória e conflito entre gerações são exemplos de temas literários. Ele não deve ser confundido com o enredo, do qual tratamos acima. Enquanto o enredo apresenta os acontecimentos da narrativa, o tema surge da maneira como esses acontecimentos, as personagens e a linguagem abordam determinada questão. Uma mesma obra pode desenvolver vários temas, alguns mais evidentes e outros percebidos apenas por meio de uma leitura atenta.
A mensagem, por sua vez, é uma interpretação do que a obra parece sugerir a respeito de um tema. Ela nem sempre aparece como uma lição clara ou uma frase que poderia ser retirada do texto. Lembremos que o texto literário é polissêmico, e de um mesmo objeto literário podemos deduzir duas mensagens completamente opostas uma da outra. Em muitas obras, o escritor apresenta conflitos e contradições sem oferecer uma resposta definitiva.
Em Antígona, de Sófocles, o tema central é o conflito entre as leis do Estado e as obrigações individuais, que hoje conhecemos por “Direito Natural”. Creonte proíbe o sepultamento de Polinices, enquanto Antígona decide enterrar o irmão por considerar que existe um dever superior à ordem do governante. Um leitor pode interpretar a tragédia como uma crítica ao abuso do poder político; outro pode entendê-la como uma advertência contra a rigidez de personagens que se recusam a considerar posições diferentes. As duas leituras são possíveis porque o próprio texto coloca em confronto princípios antagônicos e mostra as consequências trágicas das atitudes extremas.
Isso não significa que qualquer interpretação esteja automaticamente correta. Uma leitura precisa encontrar apoio no texto, considerando-o como um todo e não apenas a parte que lhe serve para tal ou qual interpretação. Corremos o risco de ser tendenciosos ou de cometer hiperinterpretação (um nome técnico para “viagem na maionese”) se não formos rigorosos em considerar o texto sempre em primeiro lugar. A experiência e o contexto de cada leitor podem destacar aspectos diferentes, mas uma boa análise literária explica seu raciocínio e apresenta evidências textuais.
Os principais gêneros literários
Os gêneros literários são categorias utilizadas para reconhecer características compartilhadas por diferentes obras. Eles ajudam o leitor a perceber como um texto se organiza, que tipo de experiência propõe e quais recursos costuma empregar. A divisão entre narrativo, lírico e dramático é uma referência tradicional e útil para uma primeira aproximação, embora não consiga abranger, de maneira rígida, toda a diversidade da literatura. Cada um dos gêneros pode se dividir em uma infinidade de subgêneros. Em classificações mais antigas, o termo “épico” aparecia no lugar de “narrativo”; atualmente, a categoria narrativa inclui também as formas de ficção em prosa.
Narrativo
O gênero narrativo apresenta uma história por meio de elementos como narrador, personagens, tempo, espaço e enredo. Entre suas formas mais conhecidas estão o romance, a novela, o conto e a crônica. O romance geralmente desenvolve uma narrativa mais extensa, com vários conflitos e personagens; a novela tem uma estrutura narrativa mais simples e é, em geral, episódica; e o conto é a narrativa feita a partir de apenas uma unidade de ação. Um conto como O Imortal de Jorge Luis Borges pode começar na Roma Antiga e terminar no século XX, mas apenas a partir de uma única unidade de ação. A crônica, por sua vez, costuma partir de episódios cotidianos e mantém uma relação histórica com jornais e revistas, podendo aproximar-se tanto da narrativa quanto do ensaio e do comentário.
Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, é um exemplo de romance; A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, é frequentemente classificada como novela; e A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa, é um conto. Já as crônicas de Rubem Braga transformam cenas aparentemente pequenas, como uma conversa, uma lembrança ou um acontecimento observado na rua, em reflexões sobre a vida e as relações humanas.
Lírico
O gênero lírico está associado principalmente à poesia e à expressão de percepções, sentimentos e estados de consciência. Em vez de desenvolver necessariamente uma sequência completa de acontecimentos, o poema lírico pode concentrar-se em uma imagem, uma emoção ou um instante de reflexão. A voz que se manifesta no poema é chamada de eu lírico e, assim como o narrador de um romance, não deve ser confundida automaticamente com o autor real. A lírica também pode apresentar elementos narrativos ou dramáticos, o que mostra que sua definição não depende apenas da presença de sentimentos pessoais.
Em E assim em Nínive ou em Cino, ambos de Ezra Pound, o eu lírico é um poeta dos tempos passados; um da antiguidade, outro da Idade Média. O autor Ezra Pound, porém, é um poeta do século XX. Isso mostra que o “eu lírico” é uma voz criada. Em ambos os poemas, o eu lírico medita a respeito do que é ser poeta e qual é o valor de sua arte.
Dramático
O gênero dramático reúne obras construídas principalmente para a representação teatral. Em vez de contar os acontecimentos por meio de um narrador, o texto os apresenta pelas falas, ações e conflitos das personagens. Diálogos, monólogos, indicações de cena e divisões em atos ou cenas orientam sua realização no palco, onde atores dão corpo e voz às personagens.
Em Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, os diálogos e as mudanças entre diferentes planos cênicos apresentam as lembranças, alucinações e conflitos de Alaíde. A obra foi escrita para ganhar forma por meio da atuação, da iluminação, do cenário e de outros elementos do espetáculo, ainda que também possa ser lida como texto literário.
Recursos que aparecem com frequência na teoria literária
Intertextualidade
A intertextualidade ocorre quando uma obra estabelece relações com outros textos, retomando histórias, personagens, imagens, estilos ou ideias que já circulam na cultura. Esse diálogo pode ser direto, como em uma citação, ou mais discreto, percebido apenas por leitores que reconhecem determinada referência.
Essas relações podem assumir formas diferentes. Uma obra pode fazer uma breve alusão a outra, repetir uma passagem com novo significado, imitar um estilo, transformar uma narrativa antiga ou produzir uma paródia. O novo texto modifica aquilo que retoma, podendo homenagear, questionar, atualizar ou inverter o sentido da obra anterior.
Em Dom Quixote, Miguel de Cervantes dialoga com os romances de cavalaria, muito populares em sua época. Depois de ler inúmeras histórias sobre cavaleiros heroicos, o protagonista decide imitar seus modelos e interpretar o mundo cotidiano como se estivesse vivendo uma aventura grandiosa. O contraste entre as convenções dessas narrativas e a realidade encontrada por Dom Quixote produz humor e paródia, mas também permite refletir sobre o poder da imaginação, da leitura e da própria literatura.
A intertextualidade também aparece na cultura popular. O musical West Side Story, por exemplo, retoma a estrutura de Romeu e Julieta, de William Shakespeare. O conflito entre as famílias rivais é transportado para as disputas entre gangues em Nova York, enquanto o romance de Romeu e Julieta encontra correspondência na história de Tony e Maria. A obra preserva elementos reconhecíveis da tragédia, mas os transforma para discutir tensões sociais, raciais e urbanas de outro período. O Rei Leão também pode ser visto como uma releitura de Hamlet, com o jovem príncipe (no caso, o jovem leão) tendo que vingar a morte do pai assassinado pelo tio.
Verossimilhança
A verossimilhança é a capacidade de uma narrativa parecer coerente e convincente dentro do universo que ela própria constrói. Isso não significa que os acontecimentos precisem ser verdadeiros ou possíveis no mundo real. O importante é que respeitem as regras estabelecidas pela obra e mantenham relações compreensíveis entre personagens, ações e consequências. Já em sua Poética, Aristóteles observava que uma impossibilidade convincente pode funcionar melhor em uma narrativa do que um acontecimento possível apresentado de maneira pouco plausível.
Um romance fantástico pode apresentar fantasmas, metamorfoses ou viagens impossíveis e ainda assim ser verossímil. Para isso, o texto precisa fazer com que esses elementos sejam aceitos como parte daquele mundo. A incoerência surge quando uma regra importante é quebrada sem explicação. Uma personagem pode agir de maneira surpreendente, mas a obra deve oferecer elementos que tornem sua decisão compreensível.
Em Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, acontecimentos extraordinários são narrados com a mesma naturalidade dos fatos cotidianos. A ascensão de Remédios, a Bela, aos céus enquanto ajudava a cuidar dos lençóis é impossível segundo as leis do mundo real, mas se integra ao universo de Macondo.
Ambiguidade
A ambiguidade ocorre quando uma palavra, imagem, acontecimento ou situação permite mais de uma interpretação plausível. Em um texto não literário, ela resulta de uma formulação imprecisa e é vício de linguagem; na literatura, porém, muitas vezes é construída de maneira intencional para ampliar os sentidos da obra.
Em A volta do parafuso, de Henry James, uma governanta acredita que duas crianças estão sendo perseguidas por fantasmas. No entanto, os acontecimentos são conhecidos principalmente por meio do relato da própria governanta, e as demais personagens não confirmam de maneira incontestável aquilo que ela afirma ter visto. Desse modo, é possível entender que as aparições são reais dentro do universo da narrativa ou que resultam das perturbações da narradora. As duas possibilidades são discutidas pela crítica porque a obra oferece indícios para ambas, sem resolver completamente a dúvida.
Conceitos que costumam aparecer em vestibulares e no ENEM
É importante considerarmos que a teoria literária também é uma matéria escolar cobrada em vestibulares e ENEM. Para o estudante secundário, aqui estão alguns conceitos que vale a pena sempre ter a mão para consulta:
Eu lírico
É a voz que se expressa em um poema, assim como o narrador é a voz que conta uma narrativa. Mesmo quando fala em primeira pessoa, o eu lírico não deve ser confundido automaticamente com o poeta real, pois é sempre uma identidade criada para o texto.
Linguagem denotativa e conotativa
A linguagem denotativa emprega as palavras em seu sentido mais direto ou literal. A conotativa acrescenta associações, valores e emoções: “casa”, por exemplo, pode designar uma construção, mas também sugerir proteção, família ou pertencimento.
Polissemia
É a possibilidade de uma mesma palavra apresentar diferentes sentidos relacionados, definidos pelo contexto. “Cabeça” pode nomear uma parte do corpo, a liderança de um grupo ou a parte superior de um objeto, sem deixar de ser reconhecida como a mesma palavra.
Símbolo
É um elemento concreto, como um objeto, uma cor, um lugar ou uma personagem, que passa a representar ideias mais amplas. Uma estrada pode simbolizar liberdade, mudança ou incerteza, mas o que o símbolo evoca depende da maneira como aparece e se repete na obra.
Alegoria
É uma construção mais extensa na qual personagens, acontecimentos ou espaços representam também ideias abstratas, políticas, morais ou religiosas. Enquanto um símbolo pode ser apenas um elemento da obra, a alegoria organiza uma narrativa inteira em dois planos: o literal e o figurado.
Narrador não confiável
É aquele cujo relato desperta desconfiança no leitor por causa de contradições, omissões, mentiras, preconceitos ou limitações de conhecimento. Suas palavras continuam sendo importantes, mas não devem ser aceitas como uma descrição inteiramente segura dos acontecimentos.
Fluxo de consciência
É uma técnica que procura representar o movimento contínuo da mente, incluindo lembranças, sensações, pensamentos interrompidos e associações inesperadas. Por isso, enfraquece a sequência cronológica e aproxima o leitor da experiência interior da personagem.
Metalinguagem
Ocorre quando a linguagem é usada para falar da própria linguagem ou de sua construção. Um poema sobre o ato de escrever poesia, um romance que comenta como uma história é narrada ou uma peça sobre a criação teatral empregam recursos metalinguísticos.
Catarse
Na tradição iniciada pela Poética de Aristóteles, a catarse está ligada ao efeito emocional produzido pela tragédia, especialmente por meio da piedade e do medo. Costuma ser entendida como uma elaboração, liberação ou transformação dessas emoções, embora o sentido exato do conceito continue discutido.
Mimese
É a representação artística de ações, pessoas e experiências humanas. Não significa simplesmente copiar a realidade, pois uma obra seleciona, organiza e transforma seus elementos para criar um mundo próprio e oferecer uma forma de compreender aquilo que representa.
Como colocar a teoria literária em prática nas suas leituras
A teoria literária não deve ser vista como um conjunto de definições que o leitor precisa decorar antes de abrir um livro, isso seria tornar a leitura desagradável e não é esse o objetivo da literatura. Seu principal valor está nas perguntas e nos instrumentos que oferece para observar o texto com mais atenção.
Na prática, um olhar mais analítico pode começar por questões simples: quem conta a história? O narrador participa dos acontecimentos ou os observa de fora? O que seu foco narrativo permite conhecer e o que permanece escondido?
Não é necessário analisar todos os aspectos de uma obra ao mesmo tempo. Em uma primeira experiência, o leitor pode escolher apenas um elemento: acompanhar as mudanças de uma personagem, observar as interrupções da ordem cronológica ou marcar imagens que aparecem repetidamente. Em outra leitura, poderá prestar atenção a um aspecto diferente e chegar a novas conclusões. Todo apaixonado por literatura sabe que reler uma obra é, às vezes, mais necessário que ler uma nova, e a releitura é sempre outra experiência, frequentemente mais marcante que a primeira leitura.
O mais importante é desenvolver um olhar capaz de fazer perguntas, comparar passagens e explicar como cada recurso participa da construção do sentido. Com a prática, os conceitos de teoria literária passam a integrar naturalmente a experiência do leitor. Toda grande obra revela novos significados quando observada por perspectivas diferentes, precisamos aprender a olhar uma obra, portanto, acessando essa variedade de perspectivas.