A linguagem literária é o principal elemento que distingue a literatura de outros tipos de texto. Em vez de apenas transmitir informações de maneira direta, ela explora o texto de forma criativa, valorizando seus sons, seus sentidos e as emoções que podem despertar. É por meio dela que uma cena comum pode ganhar humor ou profundidade, por exemplo.
Embora seja característica de romances, poemas e contos, essa maneira inventiva de usar a linguagem não está presente apenas nos livros. Metáforas, jogos de palavras e imagens simbólicas também aparecem em músicas, filmes e em anúncios publicitários. Compreender a linguagem literária faz com que entendamos por que certas frases permanecem na memória, frases que você pode ter tirado de um livro ou de programa de TV. Se uma frase te marcou, é porque o intuito dela estava além de passar uma mensagem.
O que é linguagem literária?
Uma linguagem que vai além da comunicação
A linguagem literária é uma forma artística de utilizar as palavras, essa é sua definição. Seu objetivo não é apenas comunicar um fato, dar uma instrução ou transmitir uma informação com clareza. Ela também procura despertar emoções, criar imagens na mente do leitor, provocar reflexões e abrir espaço para diferentes interpretações.
Pense, por exemplo, na frase “a noite estava silenciosa”. Ela transmite uma informação simples e direta. Um escritor, porém, poderia dizer que “a noite prendia a respiração”. Nesse caso, a ideia de silêncio continua presente, mas é expressa de maneira mais imaginativa. A noite recebe uma característica humana, e a frase pode sugerir suspense, medo, expectativa ou tranquilidade, dependendo do contexto e da percepção de quem lê.
Isso acontece porque, em um texto literário, a forma de dizer é tão importante quanto aquilo que é dito. A escolha das palavras, o ritmo das frases, as repetições, os sons e as figuras de linguagem ajudam a produzir determinados efeitos no leitor. Um mesmo acontecimento pode parecer triste, divertido, assustador ou delicado conforme a maneira como é narrado.
Qual é a diferença entre linguagem literária e linguagem não literária?
A linguagem não literária prioriza a clareza, a objetividade e a transmissão de informações. Ela aparece em notícias, manuais, receitas, avisos e textos científicos, nos quais a mensagem precisa ser compreendida de forma direta.
Já a linguagem literária explora a criatividade, a subjetividade e os diferentes sentidos que as palavras podem assumir. É comum que, em linguagem literária, possamos ter várias interpretações do que está sendo dito. É comum, aliás, o uso da ambiguidade como figura de linguagem e não como vício de linguagem.
Observe a diferença entre estas duas frases:
Linguagem não literária: “Entrei num lugar muito escuro.”
Linguagem literária: “Entrei num lugar mudo de toda luz” (Dante Alighieri, Inferno, Canto V).
A primeira frase comunica um acontecimento de maneira objetiva. A segunda apresenta a mesma situação de forma imaginativa, usando uma figura de linguagem para produzir um efeito emocional. Quem quiser interpretar a segunda frase, terá de se perguntar, por exemplo, que efeito provoca essa mistura de sentidos, já que o poeta mistura “mudez” (audição) com “luz” (visão). Trata-se de uma figura de linguagem chamada de “sinestesia”.
As principais características da linguagem literária
Conotação
A conotação acontece quando uma palavra ou expressão é usada em sentido figurado, e não apenas com seu significado literal. Nesse caso, o sentido depende do contexto e das imagens, emoções ou ideias que o autor deseja despertar no leitor.
Na frase “ela tem um coração de pedra”, por exemplo, ninguém imagina que o coração da pessoa seja realmente feito de pedra. A expressão indica frieza, insensibilidade ou dificuldade de demonstrar sentimentos. A palavra “pedra” ganha, portanto, um novo significado.
Subjetividade
A subjetividade está relacionada à expressão de emoções, percepções e experiências individuais. Em vez de apresentar os acontecimentos de maneira neutra e impessoal, o texto literário revela como o narrador, o eu lírico ou uma personagem sente determinada situação.
Esse aspecto é especialmente comum na poesia. Ao escrever “Ouvirei o martelo do ferreiro / Bater corajoso o seu cântico de certezas”, por exemplo, o poeta, no caso Manuel Bandeira, não fala de certezas que estão no objeto “martelo”, mas no seu próprio eu lírico.
A subjetividade também aparece na prosa. Em romances e contos, o narrador pode apresentar os fatos a partir de seu próprio ponto de vista, enquanto as personagens interpretam a realidade de acordo com suas lembranças, seus desejos e seus conflitos.
Pluralidade de interpretações
Uma das características mais marcantes do texto literário é a possibilidade de gerar diferentes interpretações. Um mesmo poema, conto ou romance pode despertar leituras variadas. Há dois motivos para isso: o primeiro é que, embora a obra seja um objeto fechado (Sherlock Holmes sempre será um homem solteiro, por exemplo), o objeto permite múltiplas interpretações (“o que nos diz o fato de que Sherlock Holmes não ter interesses amorosos?”, por exemplo, é uma pergunta que permite várias respostas). O segundo motivo é a experiência pessoal do leitor, levada em conta inclusive na crítica literária acadêmica com a chamada “Estética da Recepção”.
Isso não significa que qualquer interpretação seja válida. As diferentes leituras precisam encontrar apoio nas palavras do texto. Quando uma interpretação não encontra apoio no texto que está sendo analisado, chamamos de “hiperinterpretação”.
Estética da linguagem
Na literatura, o escritor não se preocupa apenas com a história que deseja contar, ele também trabalha cuidadosamente a maneira como essa história será narrada para que o texto produza no leitor um efeito emocional.
A sonoridade é um dos recursos que contribuem para esse efeito. Repetições de fonemas, pausas e combinações de sons ou mesmo o uso de uma palavra que lembre outra podem tornar um texto mais musical, delicado, intenso ou inquietante. Mesmo quando não há versos, a cadência das frases pode influenciar o ritmo da leitura e ajudar a construir a atmosfera do texto.
O famoso poema de Edgar Allan Poe, O corvo, contém a repetição do estribilho “Nevermore” (Nunca mais). Ao longo do poema, esse estribilho vai ganhando inúmeros significados, chegando até mesmo ao ponto de não significar nada exatamente, a não ser o crocitar de um corvo. É um exemplo perfeito de trabalho estético com a palavra.
Duas narrativas podem contar acontecimentos semelhantes e ainda assim provocar efeitos muito diferentes. O escritor francês Raymond Queneau tem uma obra chamada Exercícios de estilo. Nela, um acontecimento banal é recontado 99 vezes. A cada vez que o acontecimento é recontado, muda-se o estilo. São 99 efeitos diferentes que um mesmo acontecimento provoca no leitor.
Função poética da linguagem
A função poética da linguagem acontece quando a atenção se volta para a própria construção da mensagem. Trata-se de um conceito proposto pelo linguista Roman Jakobson em seu Linguística e poética.
É muito fácil de entender: para Jakobson, a linguagem tem funções que vão muito além de só comunicar. Por exemplo, vamos supor que você está em um encontro, conhecendo sua cara-metade.
Em um determinado momento, você está falando de você, do que está sentindo, pensando, de seus planos de futuro. Nesse momento, está predominando o “eu” e a função emotiva da linguagem.
Em outro momento, você está perguntando sobre a pessoa, sobre o que ela sente, pensa, sobre seus planos de futuro. Nesse momento, predomina a função apelativa da linguagem.
Às vezes, a conversa acaba no vazio, mas você não quer parar de conversar para que não fique um clima constrangedor. Então começa a falar sobre o tempo, sobre algo na mesa, sem fixar o assunto em nada em específico. Nesse momento, predomina a função fática da linguagem: o único objetivo de sua conversa é não deixar a conversa morrer.
De repente, acontece uma batida de carro do lado de fora do estabelecimento em que vocês estão. Vocês se assustam e começam a conversar sobre a batida, sobre o perigo que anda as ruas ultimamente, assuntos que não dizem respeito a vocês exatamente, mas a outras coisas do mundo. Nesse momento, predomina a função referencial da linguagem. É a função que deve predominar em textos não literários, como jornais ou artigos científicos.
Finalmente, vocês descobrem que estão apaixonados. Já não há o medo de rejeição, apenas aquela alegria serena de estar do lado de uma pessoa que você gosta e que, melhor ainda, também gosta de sua companhia. Então, você quer dizer alguma coisa, mas tem de ser algo bonito. Pode ser algo meigo, fofo, mas também não pode ser fofo demais senão vai soar ridículo. Você percebe que está pensando com muito cuidado no que vai dizer. Escolhe as palavras, busca uma referência em uma letra de música… Chegamos à parte do encontro em que o modo como você vai dizer importa mais do que tudo, chegamos à função poética da linguagem.
Obviamente, as funções da linguagem não ocorrem de maneira isolada, e muitas vezes, na literatura, predominam duas funções. Por exemplo, na poesia lírica predomina a função emotiva e poética, no drama predomina a função poética e apelativa.
Figuras de linguagem e sua importância na literatura
Metáfora
A metáfora acontece quando um elemento é associado a outro por alguma semelhança, sem o uso de palavras comparativas como “como” ou “tal qual”. Em vez de afirmar que algo se parece com outra coisa, o texto apresenta essa relação de forma direta.
Na frase “a vida é uma viagem ao desconhecido”, por exemplo, a vida não é literalmente uma viagem. A expressão sugere que ela tem dificuldades e destinos inesperados.
Leia estes versos de Camões:
“Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.”
Observe que a imagem é construída a partir de uma sucessão de metáforas, sendo que o primeiro elemento delas é a palavra “amor” e o segundo elemento o objeto da comparação. Obviamente o amor não é fogo, mas produz uma sensação de ardência; não é ferida, mas dói como se fosse etc.
A metáfora ajuda a representar sentimentos e conceitos abstratos de maneira mais concreta. Em vez de apenas dizer que uma personagem trabalhava mal porque estava cansada, o escritor pode afirmar que “seu cansaço era uma bola de chumbo que ela arrastava na recepção”. A imagem torna a emoção mais intensa e convida o leitor a imaginá-la e interpretá-la.
Comparação
A comparação é uma figura de linguagem que aproxima dois elementos por alguma característica em comum. Essa relação aparece de forma explícita, geralmente com o uso de palavras como “como”, “tal qual”, “assim como” ou “parece”.
Na frase “seus olhos brilhavam como estrelas”, por exemplo, o brilho dos olhos é comparado ao das estrelas. O uso da palavra “como” mostra claramente que se trata de uma semelhança. Se em vez do “como” houvesse o verbo ser, como em “seus olhos eram estrelas que brilhavam”, não haveria comparação, mas metáfora. Jorge Luis Borges observava na metáfora que une “olhos” e “estrelas” um dos clichês mais repetidos da literatura.
Observe outro exemplo:
Comparação: “Ela é forte como uma rocha.”
Metáfora: “Ela é uma rocha.”
Na primeira frase, a semelhança é apresentada de maneira direta por meio da palavra “como”. Na segunda, a associação acontece sem um termo comparativo, como se a pessoa fosse realmente uma rocha.
A comparação pode ser vista como uma irmã menor da metáfora, mas muitas vezes uma boa comparação atinge grande força poética, como nos versos a seguir, de Jorge de Lima:
“Nele estás construída à semelhança de um imenso órgão / movimentado pelo meu espírito”.
Personificação
A personificação, também chamada de “prosopopeia”, acontece quando características, sentimentos ou ações humanas são atribuídos a animais, objetos ou fenômenos da natureza.
Na frase “o vento sussurrava entre as árvores”, por exemplo, o vento recebe a capacidade humana de sussurrar. Já em “o relógio caminhava devagar”, o objeto é apresentado como se pudesse se mover por vontade própria.
Esse recurso também pode aparecer com animais. Em uma história, uma raposa pode falar, planejar ou demonstrar vaidade, enquanto um cachorro pode aconselhar uma personagem. Nesses casos, os animais agem como seres humanos. Todas as fábulas de Esopo ou La Fontaine usam a prosopopeia obrigatoriamente.
Na literatura de ficção, a personificação ajuda a tornar as descrições mais vivas e imaginativas. Ao dizer que “a Morte, ao se aproximar, avançara com sua sombra negra diante dela”, Edgar Allan Poe cria uma imagem cheia de emoção em vez de simplesmente escrever “ela estava morrendo”.
Hipérbole
A hipérbole é uma figura de linguagem baseada no exagero intencional. Ela amplia uma situação, uma característica ou um sentimento para dar mais força à mensagem e produzir um efeito expressivo.
Quando alguém diz “esperei uma eternidade”, por exemplo, não significa que a espera durou para sempre. O exagero serve para mostrar que ela pareceu muito longa. O mesmo ocorre em expressões como “estou morrendo de fome”.
Na literatura, a hipérbole pode intensificar emoções como medo, amor, tristeza ou entusiasmo. Um narrador pode dizer que o coração de uma personagem “batia tão forte que toda a cidade podia ouvi-lo”, ressaltando seu nervosismo ou sua ansiedade.
O exagero também pode produzir humor ou tornar uma cena mais dramática. Assim, a hipérbole destaca uma ideia de maneira marcante e mostra a intensidade com que algo é sentido ou percebido. Perceba o uso da hipérbole e o consequente efeito de humor neste parágrafo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis:
“— Tu és o meu discípulo amado, o meu califa — bradou Quincas Borba, com uma nota de ternura, que até então lhe não ouvira –-. Posso dizer como o grande Muamede: nem que venham agora contra mim o Sol e a Lua, não recuarei das minhas ideias. Crê, meu caro Brás Cubas, que esta é a verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos séculos.”
Ironia
A ironia acontece quando o sentido pretendido é diferente e muitas vezes contrário ao significado literal das palavras. Nesse caso, o leitor precisa observar o contexto para compreender o que realmente está sendo comunicado.
Imagine, por exemplo, que uma pessoa chegue completamente molhada depois de enfrentar uma tempestade e diga: “Que dia maravilhoso para passear”. Embora a frase pareça elogiar o tempo, sua intenção é destacar justamente como o clima está desagradável.
Outro exemplo seria uma mãe que olha para o quarto muito bagunçado do filho e comenta: “Nossa, que organização impecável”. A expressão “organização impecável” não deve ser entendida literalmente, pois a mãe quer chamar atenção para a desordem.
Na literatura, a ironia pode produzir humor, revelar críticas ou mostrar contradições entre aquilo que as personagens dizem e a realidade. Ela também cria uma espécie de cumplicidade com o leitor, que percebe um significado escondido que talvez não seja compreendido por todas as personagens.
Para identificar a ironia, não basta observar apenas as palavras. É preciso considerar a situação, o tom e as informações apresentadas pelo texto.
Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, no Poema em linha reta escreve:
“Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…”
Obviamente, ele está se referindo a seus conhecidos com desprezo. Quando escreve “todos eles príncipes”, faz com ironia.
Outras figuras recorrentes
A metonímia acontece quando uma palavra é substituída por outra com a qual mantém uma relação de proximidade. Na frase “li Machado de Assis nas férias”, por exemplo, o nome do autor representa suas obras. Esse recurso torna a expressão mais natural e pode evitar repetições desnecessárias. Todos usamos a metonímia, quando usamos a expressão “bebi um copo d’água”, ninguém entende que o copo foi bebido, mas a água que estava no copo. Na linguagem não literária, sobretudo em textos científicos, a metonímia deve ser usada com cuidado, porque ela cria imprecisões. “Plantar uma árvore”, em um texto que requer precisão, é muito diferente de “plantar a muda de uma árvore” ou “plantar as sementes de uma árvore”.
A antítese aproxima palavras ou ideias opostas para destacar um contraste. Em “por fora sou contentamento / mas dentro do peito me deploro” (Dante Alighieri, Soneto, Vita Nova) a oposição entre “contentamento” e “deploro” reforça o conflito vivido pelo eu lírico de Dante. Trata-se de uma das figuras de linguagem mais comuns na poesia a partir do renascimento.
O paradoxo também reúne ideias opostas, mas cria uma aparente contradição. Uma frase como “quanto mais aprendia, menos sabia” parece incoerente em um primeiro momento, porém expressa a percepção de que o conhecimento torna uma pessoa mais consciente de tudo o que ainda desconhece. A famosa estrofe de Calderón de la Barca apresenta o paradoxo: “e o maior bem é pequeno”. Também o paradoxo é usado para criar imagens insólitas, como no poema de Domingos de Carvalho: “E teu gesto – que é teu riso – /era um mineral estático / ainda não escavado / pelo mar duro e fleumático.”
Já o eufemismo suaviza uma ideia considerada desagradável. Dizer que alguém “partiu”, “abotoou o paletó”, “foi desta para a melhor” em vez de afirmar diretamente que morreu é um exemplo comum. Ele pode ter efeito de humor, como “foi de Vasco” ou “foi de arrasta pra cima”. No poema Consoada, Manuel Bandeira se refere à morte como “A indesejada das gentes”, fazendo uma alusão ao título de um conto de Machado de Assis e ao mesmo tempo amortecendo o tema da morte. O restante do poema continua no tom de eufemismo, pois o eu lírico de Bandeira não diz “estou pronto para morrer”, porém diz: “O meu dia foi bom, pode a noite descer.” O eufemismo é uma das figuras de linguagem mais difíceis de usar em literatura, porque a linguagem literária pretende impactar, ser memorável, enquanto o eufemismo busca reduzir o impacto. Deve ser usada com cuidado pelos escritores.
Onde encontramos a linguagem literária?
Romances, contos e poemas
Os romances, os contos e os poemas são os espaços mais tradicionais da linguagem literária. Neles, o autor utiliza as palavras para criar atmosferas, expressar emoções e despertar a imaginação do leitor.
Nos romances, essa linguagem pode aparecer na construção detalhada das personagens, dos ambientes e dos conflitos. Como a narrativa costuma ser mais longa, o escritor tem espaço para desenvolver diferentes pontos de vista e trabalhar com símbolos, descrições e reflexões ao longo da obra.
Nos contos, os mesmos recursos aparecem de maneira mais concentrada. Uma frase, um objeto ou um gesto aparentemente simples pode adquirir grande importância e sugerir sentidos que vão além do que está diretamente narrado.
Já nos poemas, a atenção à escolha das palavras, ao ritmo e à sonoridade costuma ser ainda mais evidente. Cada verso pode reunir imagens, sentimentos e diferentes interpretações. Apesar das particularidades de cada gênero, romances, contos e poemas compartilham o uso criativo e artístico da linguagem obrigatoriamente.
Note bem: obrigatoriamente. Não é dispensável em literatura o uso da linguagem literária. Há usos diferentes dessa linguagem, mas ela sempre está presente.
Canções
As canções utilizam recursos típicos da literatura. Metáforas, comparações, repetições e jogos de palavras ajudam a tornar as letras mais expressivas e memoráveis.
Em uma letra, por exemplo, a frase “eu sou nuvem passageira / que com um vento se vai” não diz que o eu lírico de Hermes Aquino é, de fato, uma nuvem. Trata-se de uma metáfora. A metáfora representa que o eu lírico é instável, volúvel.
O ritmo, as rimas e a repetição de determinados sons também aproximam as canções dos poemas. Quando combinados à melodia, esses recursos destacam trechos importantes e facilitam a memorização.
Isso não significa que a letra de música seja um gênero literário. Essa é uma questão espinhosa que não será tratada neste artigo. No entanto, quando as palavras são trabalhadas de maneira artística e apresentam sentidos figurados, imagens e diferentes possibilidades de interpretação, a linguagem literária se torna uma parte importante da experiência musical.
Cinema e teatro
No cinema e no teatro, a linguagem literária aparece com frequência nos roteiros, nos diálogos e nos monólogos. As falas das personagens podem usar metáforas, ironias, repetições e outras figuras de linguagem para expressar emoções. Na dramaturgia, as funções da linguagem de Jakobson, das quais tratamos acima, aparecem de forma mais evidente.
Quando, no início de Poderoso Chefão, Don Corleone se sente indignado com a proposta de “cometer um assassinato por dinheiro”, é evidente que ele está falando e agindo de forma irônica, porque ele é um chefão de máfia. Matar por dinheiro é só mais uma terça-feira para ele.
No teatro, esses recursos ganham ainda mais força. Um monólogo pode explorar o ritmo das frases e as repetições para mostrar a angústia ou a confusão de uma personagem. O famoso discurso de Marco Antônio na peça Júlio César de Shakespeare repete os adjetivos “wise and honorable” (sábios e honrados) para os conspiradores. Porém, a cada vez que esses adjetivos são repetidos, mais e mais são tomados por um tom irônico.
Publicidade
A publicidade também utiliza recursos da linguagem literária para chamar atenção e criar mensagens fáceis de lembrar.
Uma propaganda de peças para carro nos anos 90 associou a marca Cofap à raça de cachorro Dachshund. O resultado é que até hoje muita gente conhece essa raça por Cofap. A metáfora, verbal e visual, fez com que o nome da marca se tornasse memorável.
Uma propaganda mais antiga, dos anos 70, das “Casas Pernambucanas” usava de uma prosopopeia, personificando o frio. O frio bate na casa de uma dona de casa, que lhe responde cantando: “Não adianta bater / eu não deixo você entrar / nas Casas Pernambucanas / é que vou aquecer o meu lar”.
Diferentemente da literatura, a publicidade utiliza esses recursos com uma finalidade necessariamente persuasiva. Sua intenção é fazer com que a marca ou a mensagem permaneça na memória do consumidor para que ele compre um produto.
Por que a linguagem literária é importante?
A linguagem literária amplia as possibilidades de expressão da língua. Ela permite comunicar emoções e experiências que não cabem em uma explicação direta.
O contato com textos literários estimula a criatividade e a imaginação. Ao visualizar cenários, acompanhar personagens e interpretar metáforas, o leitor constrói mentalmente aquilo que o texto apresenta. É um engano acreditar que o leitor é passivo na leitura, ele é ativo em exercitar sua imaginação.
Como uma obra pode reunir diferentes camadas de significado, sua leitura desenvolve ainda a capacidade de interpretação e o pensamento crítico. O leitor aprende a questionar pontos de vista e buscar sentidos que embora estejam no texto, não estão declarados de maneira evidente. A cada releitura, inclusive, novas associações e sutilezas podem ser percebidas.
A literatura como um todo, e não só a aparição da linguagem literária aqui e ali, em um filme ou em uma peça de propaganda, também contribui para a formação cultural, pois preserva histórias, costumes e modos de falar de diferentes povos e épocas. Ao mesmo tempo, oferece prazer. A literatura é fonte de prazer intelectual, e isso não deve ser subestimado. É muito mais fácil exercitar a imaginação e desenvolver a inteligência quando se tem prazer no processo. Muitos textos pedagógicos dos séculos passados eram escritos em verso com o objetivo de ensinar por meio do deleite.
Conceitos que costumam gerar dúvidas
Alguns termos aparecem com frequência nos estudos sobre linguagem literária e ajudam a compreender como os textos constroem seus sentidos. Veja os principais:
Linguagem conotativa: o mesmo que “conotação”, de que tratamos acima. A linguagem conativa ou conotativa utiliza as palavras em sentido figurado.
Linguagem denotativa: o contrário de “linguagem conotativa”, a denotação emprega as palavras em seu sentido literal, direto e objetivo. Predomina em notícias, manuais, receitas e outros textos que priorizam a clareza da informação.
Texto literário: é o texto produzido com intenção artística ou expressiva. No texto literário não há finalidade prática (não tem o objetivo primário de informar, explicar ou orientar) e necessariamente utiliza da linguagem literária.
Texto não literário: tem um objetivo funcional, como informar, explicar ou orientar. Por isso, geralmente apresenta linguagem clara, objetiva e pouco aberta a ambiguidades ou a múltiplas interpretações.
Eu lírico: é a voz que se manifesta em um poema e expressa sentimentos, pensamentos ou percepções. Não deve ser confundido automaticamente com o autor, pois pode ser uma voz criada por ele.
Polissemia: é a capacidade de uma palavra possuir diferentes significados conforme o contexto. “Banco”, por exemplo, pode indicar um assento ou uma instituição financeira.
Ambiguidade: ocorre quando uma frase ou expressão permite mais de uma interpretação. Na literatura, pode ser usada de propósito para enriquecer o texto e estimular diferentes leituras. Quando Hamlet diz: “Not so, my lord; I am too much i’ the sun.” Esse “sun” pode se referir a “sol” ou a “filho”.
Narrador: é a voz responsável por contar os acontecimentos de uma narrativa. Ele pode participar da história como personagem ou apenas observar e relatar os fatos.
Estilo: é a maneira particular de escrever de um autor, grupo ou período literário. Envolve escolhas de vocabulário, ritmo, construção das frases e uso de figuras de linguagem. Enfim, envolve um uso específico da linguagem literária.
Como reconhecer a linguagem literária em uma leitura
Simplesmente ficar à caça de figuras de linguagem não é a melhor maneira de reconhecer a linguagem literária. O mais importante é observar como o texto foi construído e qual é sua finalidade. Na leitura literária, a linguagem deixa de funcionar como um meio de comunicação e passa a chamar atenção por sua criatividade, sua dimensão imaginária e pelos efeitos que produz no leitor.
Durante a leitura, vale perceber a presença de metáforas, imagens, repetições e associações inesperadas. A organização das palavras e as escolhas de vocabulário também participam da construção literária. Nesses textos, a forma da mensagem ganha destaque.
É importante verificar a presença de múltiplos sentidos. Um objeto pode adquirir valor simbólico, uma paisagem pode refletir o estado emocional de uma personagem e uma frase aparentemente simples sugere conflitos ou ideias que não estão expressos diretamente. Essas interpretações precisam encontrar apoio nas relações construídas pelo próprio texto. É preciso ter cuidado com as hiperinterpretações.
Observar esses elementos ajuda o leitor a compreender melhor as escolhas do autor e os efeitos produzidos pela obra, sem reduzir o texto a uma única explicação. A experiência literária também depende do repertório, da sensibilidade e do contexto de cada pessoa, razão pela qual leitores diferentes podem perceber aspectos distintos de uma mesma narrativa ou poema. Isso é reconhecido pela crítica literária, em uma escola de crítica conhecida como “Estética da Recepção”.
Uma boa forma de desenvolver esse olhar é reler um poema, conto ou trecho de romance que você já conheça. Na nova leitura, preste atenção às imagens, ao ritmo, às palavras que se repetem e às expressões que permitem mais de um sentido. Pergunte-se: “o que há de artístico aqui?” A história pode continuar a mesma, mas a experiência dificilmente será idêntica, pois diferentes leituras de uma obra revelam outras relações e produzem novas experiências estéticas e reflexivas.