Tudo o que você precisa saber para adentrar um dos universos mais singulares da literatura russa.

O Mestre e Margarita, de Mikhaíl Bulgákov: tudo o que você precisa saber antes de ler

Tudo o que você precisa saber para adentrar um dos universos mais singulares da literatura russa.

O Mestre e Margarita é um romance muito difícil de definir ou mesmo de descrever. Obra singular da literatura russa do século XX, o livro de Mikhaíl Bulgákov reúne três linhas narrativas distintas numa obra dentro da qual o absurdo surge a todo instante. Trata-se de uma mistura vertiginosa em que o cotidiano convive com o sobrenatural, uma profunda experiência de liberdade imaginativa.

O Mestre e Margarita conduz o leitor por diferentes planos narrativos que pouco a pouco começam a se iluminar mutuamente. De um lado, a Moscou soviética, transformada em palco de uma sátira delirante; de outro, a antiga Jerusalém e a história de Pôncio Pilatos, narrada com uma gravidade muito diferente. Entre esses mundos, ganha forma uma história de amor que se tornará essencial para compreender o alcance do romance. Para entrar no universo de Bulgákov, é necessário aceitar, por algum tempo, que as peças da narrativa não se encaixam. 

Uma visão geral de O Mestre e Margarita

Uma das características mais marcantes de O Mestre e Margarita é a dificuldade de enquadrá-lo em um único subgênero do romance. Bulgákov reúne muitos componentes que não se relacionam (sátira e reflexão teológica, por exemplo), mas esses componentes fazem parte de uma mesma construção romanesca. Podemos considerar O Mestre e Margarita como uma experiência radical de manutenção da unidade narrativa apesar dos elementos conflitantes. Para tornar essa questão mais visível: imagine que você assiste a uma série em que, quando o ponto de vista muda, muda também o gênero da obra. Quando a câmera acompanha certo personagem, temos uma história de terror; quando acompanha outro personagem, temos um romance. Essa é uma experiência narrativa semelhante ao que nos propõe Bulgákov.

Considerar, portanto, o romance apenas uma história sobre o Diabo em Moscou deixa de fora boa parte de sua proposta. A presença do sobrenatural funciona como instrumento de observação. Ao alterar as regras da realidade, Bulgákov coloca personagens diante de situações que expõem problemas morais, enquanto outros núcleos ampliam a discussão para temas como verdade, criação artística e liberdade. Esse projeto ocupou o escritor durante mais de uma década. As pesquisas situam a composição entre 1928 e 1940, e Bulgákov continuou trabalhando no manuscrito até as últimas semanas de vida. Ele morreu sem vê-lo publicado. 

Qual é a premissa da história?

A narrativa começa na Moscou soviética, quando um estrangeiro enigmático chamado Woland aparece na cidade acompanhado por uma comitiva tão extraordinária quanto ele. Aos poucos, torna-se evidente que aquele visitante não é um simples professor ou mágico: Woland é uma representação do Diabo, e sua passagem por Moscou desencadeia episódios sobrenaturais que atingem cidadãos interessados sobretudo em preservar privilégios ou obter vantagens. Muitas dessas cenas assumem a forma de farsa e humor grotesco. Ao perturbar a rotina da cidade, Woland e seus acompanhantes fazem aparecer com mais nitidez comportamentos que já estavam presentes nela.

Essa é a primeira linha narrativa da história. Em paralelo, o leitor conhece o Mestre, um escritor marcado pela rejeição de seu romance sobre Pôncio Pilatos, e Margarita, a mulher que o ama e que progressivamente cruza a fronteira entre o mundo cotidiano e o sobrenatural. Dentro da própria narrativa do Mestre surgem ainda os acontecimentos de Jerusalém, chamada Yershalaim no romance, envolvendo Pôncio Pilatos e Yeshua Ha-Notsri, a recriação de Jesus feita pelo Mestre. Assim, Moscou, a história amorosa do Mestre e de Margarita e a narrativa de Pilatos constituem uma unidade. O romance estabelece paralelos e conexões entre esses planos, e perceber como eles começam a dialogar é uma parte importante da experiência de leitura. 

Como é o tom da obra?

Nas cenas de Moscou, predominam a ironia, a sátira, o fantástico e o grotesco: acontecimentos impossíveis são narrados ao lado de preocupações burocráticas e interesses banais, e o contraste produz comicidade. O grotesco satírico é um procedimento estilístico central da obra. Os capítulos relacionados a Pilatos reduzem essa comicidade e assumem um registro mais grave, voltado para dilemas morais e religiosos. A história do Mestre e de Margarita, por sua vez, introduz momentos mais íntimos e líricos. Essa alternância ajuda a explicar por que o romance pode passar da farsa à reflexão filosófica sem abandonar sua unidade.

A fantasia permite a Bulgákov alterar as condições normais da realidade para melhor revelá-la, essa é uma capacidade do gênero fantástico de tornar visível aquilo que determinada cultura reprime ou mantém fora do discurso. Ao mesmo tempo, as histórias do Mestre, de Margarita e de Pilatos deslocam a atenção para problemas que atravessam todo o romance, como a liberdade de criação e a fidelidade à verdade. É dessa convivência entre sátira social e investigação moral que vem boa parte da complexidade de O Mestre e Margarita. É impossível que um romance com essa pretensão fosse realizado a partir de uma forma típica e realista do gênero.

A relação entre O Mestre e Margarita e Bulgákov

A experiência de Mikhaíl Bulgákov como escritor na União Soviética nos ajuda a compreender O Mestre e Margarita. No fim da década de 1920, sua situação profissional havia se deteriorado rapidamente. Suas peças eram atacadas pela crítica oficial e, em 1929, suas obras deixaram de ser publicadas ou encenadas. No ano seguinte, Bulgákov chegou a escrever ao governo soviético pedindo que lhe permitissem trabalhar ou emigrar. Embora tenha conseguido posteriormente um posto no Teatro de Arte de Moscou, continuou enfrentando dificuldades para levar seus textos ao público. Quando começou a elaborar o romance que se tornaria O Mestre e Margarita, ele conhecia de maneira direta os mecanismos pelos quais instituições culturais podiam decidir o destino de uma obra e limitar a atividade de um escritor.

Durante a década de 1930, Bulgákov continuou trabalhando com peças de teatro e adaptações. Nesse período, dedicou-se com especial interesse a escritores que também haviam enfrentado relações difíceis com o poder e com as instituições de seu tempo. A partir de 1929, trabalhou em diferentes projetos sobre Molière; em 1930, adaptou Almas Mortas, de Gógol, para o palco; e, em 1934 e 1935, escreveu com Vikenti Veressaiev uma peça sobre os últimos dias de Púchkin. A censura foi pesada, projetos foram rejeitados ou impedidos de chegar ao público, e Bulgákov deixou o Teatro de Arte de Moscou em 1936. Foi nesse ambiente de trabalho constante e sucessivas restrições que ele escreveu e reescreveu O Mestre e Margarita, obra que o acompanharia até os últimos meses de sua vida. 

Um romance sobre literatura e poder

Mestre, uma das personagens do romance, escreveu um romance sobre Pôncio Pilatos, nada que diga respeito a questões políticas. Ainda assim, o manuscrito é recebido com hostilidade e seu autor descobre que escrever uma obra é apenas parte do problema. Para existir publicamente, ela precisa atravessar um sistema de editores, críticos e instituições capazes de legitimá-la ou condená-la. O Mestre e Margarita se ocupa repetidamente do problema de preservar um texto e fazê-lo chegar a um leitor. Esse tema adquire um peso especial diante da própria trajetória de Bulgákov, que passou boa parte da década de 1930 sem conseguir publicar sua ficção original.

Bulgákov transforma o problema institucional numa pergunta sobre a própria autoridade. Quem pode determinar que uma obra não merece existir? O destino do Mestre mostra como o controle sobre a literatura corresponde ao controle sobre quais versões da realidade encontram espaço público. A oposição entre escritor e Estado ultrapassa o debate sobre publicação. Ela envolve a relação entre criação e reconhecimento e, sobretudo, o preço pago por quem insiste em sustentar uma visão que não coincide com aquela aceita pelo ambiente cultural ao seu redor. A história do Mestre ajuda o romance a examinar quem pode dizer, com autoridade política, o que é verdade e o que não é.

A história de criação e censura

A própria história de O Mestre e Margarita torna essa discussão ainda mais significativa. Bulgákov começou a trabalhar no projeto por volta de 1928 e, em 1930, destruiu uma versão inicial do manuscrito. Depois retomou o romance e continuou reescrevendo-o durante a década seguinte, até pouco antes de morrer, em março de 1940. Sua esposa, Elena Serguêievna Bulgákova, acompanhou de perto esse processo, pois há registros de capítulos ditados a ela, e versões posteriores do texto incorporaram correções e acréscimos anotados por Elena a partir das indicações do marido. Após a morte de Bulgákov, Elena preservou os manuscritos e participou dos esforços para que a obra finalmente fosse publicada.

O romance só chegou oficialmente ao público soviético mais de vinte e cinco anos depois. A revista Moskva publicou-o em duas partes, em novembro de 1966 e janeiro de 1967, numa edição da qual os censores eliminaram uma parcela considerável do texto; estudos sobre as traduções e edições calculam os cortes em aproximadamente 12% do manuscrito. Os trechos suprimidos circularam e foram incorporados a edições publicadas fora da União Soviética. Em 1973, uma versão mais completa apareceu oficialmente em Moscou, embora a história textual do romance permaneça complexa devido às muitas redações deixadas por Bulgákov e às intervenções realizadas durante sua preparação editorial. Assim, a conhecida ideia de que os manuscritos sobrevivem adquire em O Mestre e Margarita uma dimensão curiosa. A existência do livro dependeu da preservação de um manuscrito que seu autor não conseguiu ver publicado.

Os temas de O Mestre e Margarita

Os grandes temas de O Mestre e Margarita aparecem em conjunto. Mesmo os três grandes planos do romance, apesar de parecerem fragmentados, participam dessa união. Os acontecimentos sobrenaturais de Moscou expõem vícios sociais e individuais, enquanto a história de Pilatos desloca o problema para a responsabilidade moral. Já a trajetória do Mestre e de Margarita coloca em primeiro plano a criação artística e a capacidade de agir em nome de outra pessoa. 

O bem e o mal

Woland ocupa uma posição particularmente difícil de definir dentro desse universo moral. Ele é apresentado como Satanás e chega a Moscou acompanhado por figuras demoníacas, mas seu papel não corresponde ao de um vilão empenhado em corromper pessoas inocentes. Suas intervenções atingem personagens que já demonstravam ganância e oportunismo antes de encontrá-lo. O espetáculo de magia no Teatro de Variedades é um exemplo claro. Woland e sua comitiva criam as condições para que o desejo por dinheiro e bens materiais se manifeste de maneira exagerada, mas não inventam esse desejo. O sobrenatural funciona como um mecanismo que torna visíveis comportamentos que já existiam na sociedade moscovita.

Woland pune, ridiculariza e intimida, mas também auxilia personagens perseguidos. Sua atuação levanta uma questão que atravessa O Mestre e Margarita: punir alguém por seus vícios é necessariamente fazer o bem? Bulgákov não oferece uma divisão confortável entre personagens virtuosos de um lado e agentes do mal do outro. O romance faz com que o leitor observe quem exerce poder, quem sofre suas consequências e que tipo de justiça está sendo aplicada.

Amor e sacrifício

A história de Margarita muda a escala do romance. Separada do Mestre e sem saber como reencontrá-lo, ela não permanece esperando que os acontecimentos se resolvam. Quando surge a possibilidade de entrar no universo sobrenatural de Woland, Margarita aceita enfrentar aquilo que desconhece porque enxerga nessa escolha uma oportunidade de recuperar o homem que ama. Seu percurso exige decisões próprias e a disposição de assumir consequências que não pode prever. 

Margarita também impede que esse amor seja entendido como simples devoção passiva. Ela age, negocia e assume riscos, e sua capacidade de se preocupar com o sofrimento alheio ultrapassa sua busca pelo Mestre. Nesse ponto, o romance aproxima amor e misericórdia. Woland está associado com frequência à aplicação de uma espécie de justiça, enquanto Margarita introduz a possibilidade de interromper a punição em nome da compaixão. 

Verdade, medo e covardia

O que uma pessoa faz quando reconhece uma verdade, mas teme as consequências de agir de acordo com ela? Ao interrogar Yeshua, Pilatos percebe que está diante de um homem que não considera merecedor da condenação que o ameaça. Sua posição política, entretanto, transforma essa convicção num problema. O procurador possui autoridade, mas também precisa responder à estrutura de poder da qual faz parte. 

Esse problema encontra ecos na Moscou do século XX, embora as situações não sejam idênticas. Escritores, funcionários e outras personagens também precisam decidir como se comportar diante de instituições capazes de premiar a conformidade e punir determinadas formas de independência. O romance mostra diferentes maneiras pelas quais o medo condiciona a ação humana. Em Pilatos, a questão é particularmente grave porque ele dispõe de um poder que Yeshua não possui; no caso do Mestre, perseguido e sem autoridade institucional, o medo surge de uma posição muito mais vulnerável. Em ambos os planos, porém, O Mestre e Margarita insiste no custo moral de abandonar aquilo que se reconheceu como verdadeiro.

A criação literária

O Mestre escreve um livro sobre Pôncio Pilatos, e essa narrativa aparece dentro de O Mestre e Margarita, fazendo com que o leitor acompanhe ao mesmo tempo a história de um escritor e parte da obra que ele produziu. Com isso, Bulgákov desfaz uma fronteira simples entre o que estaria “dentro” e “fora” do romance do Mestre. A Jerusalém de Pilatos chega ao leitor por diferentes caminhos narrativos, e os acontecimentos desse plano adquirem uma presença que ultrapassa a condição de mera ficção escrita por um personagem. A estrutura obriga, portanto, a perguntar de onde vem uma história e de que maneira ela pode transmitir uma verdade sobre acontecimentos aos quais seu autor não teve acesso direto.

O Mestre vê sua obra recusada e atacada, perde a confiança em seu trabalho e tenta destruí-lo, mas o texto continua ocupando o centro da narrativa. A literatura aparece simultaneamente como algo vulnerável, porque depende de autores, leitores e condições concretas de circulação, e difícil de eliminar por completo. Escrever não garante que uma obra seja publicada, compreendida ou preservada, mas sua existência pode ultrapassar as instituições que tentam determinar seu valor. A criação artística, assim, se conecta diretamente às demais questões do livro. Procurar a verdade, colocá-la em palavras e sustentar aquilo que foi criado também são formas de enfrentar o medo e o poder.

O estilo narrativo de O Mestre e Margarita

A variedade de O Mestre e Margarita está inscrita na própria maneira de narrar, pois não se trata de um romance convencional. Os capítulos ambientados em Moscou exploram um narrador mais próximo da sátira. Já a narrativa de Pôncio Pilatos abandona grande parte desse humor e assume um registro mais contido, com forte atenção aos conflitos psicológicos e à sequência dos acontecimentos. A história do Mestre e de Margarita introduz ainda outra modulação, sobretudo quando Margarita passa ao centro da narrativa. 

Nas cenas moscovitas, essa liberdade aparece também no ritmo. Diálogos rápidos dão lugar a perseguições, espetáculos públicos e episódios em que a lógica cotidiana se desfaz sem que a narração justifique cada acontecimento. Uma reunião administrativa adquire contornos grotescos; um espetáculo de variedades se transforma numa demonstração pública dos interesses de sua plateia. Em seguida, o romance é capaz de mudar de registro e acompanhar Pilatos em uma narrativa muito menos farsesca. A oscilação entre essas formas permite que Bulgákov passe da comédia social a questões morais e metafísicas sem separar uma coisa da outra em romances diferentes.

O fantástico como instrumento de crítica

A chegada de Woland torna possível romper as regras da vida cotidiana de Moscou desde as primeiras páginas. Pessoas desaparecem, objetos assumem comportamentos impossíveis e a comitiva do visitante realiza feitos que nenhuma explicação racional consegue acomodar. O mais importante é que Bulgákov insere esses acontecimentos no funcionamento comum da cidade. As personagens continuam preocupadas com apartamentos, cargos, dinheiro e prestígio mesmo quando estão diante de fenômenos sobrenaturais. O contraste faz com que o fantástico invada o mundo existente e force seus habitantes a mostrar como reagem quando suas expectativas falham.

Woland e seus acompanhantes oferecem circunstâncias nas quais os vícios podem se manifestar sem disfarce. O espetáculo no Teatro de Variedades é um dos exemplos mais evidentes desse método. O sobrenatural fornece a situação, mas são as escolhas da própria plateia que revelam o alvo da cena. Bulgákov usa assim o impossível para tornar mais visíveis mecanismos bastante concretos da vida social. O fantástico amplia a realidade em vez de simplesmente substituí-la.

A construção em diferentes planos

A estrutura do romance se organiza principalmente em torno de dois tempos e espaços: a Moscou soviética e a Jerusalém do período de Pôncio Pilatos, chamada Yershalaim no livro. Moscou concentra grande parte da sátira e da intervenção sobrenatural, enquanto os capítulos de Pilatos se aproximam de uma narrativa histórica e psicológica. Entre esses dois planos se desenvolve ainda a história do Mestre e de Margarita, que se liga a ambos: o Mestre escreveu um romance sobre Pilatos, e o destino desse manuscrito passa a ocupar um lugar central na obra. É tentador recorrer a conceitos como “história dentro da história” e “mise en abyme”. Esses conceitos podem ser até úteis para uma abordagem inicial, mas não dão conta da estrutura do romance.

Isso porque Moscou e Jerusalém começam distantes no tempo, mas apresentam problemas que se correspondem. Em ambos os espaços aparecem personagens confrontados com autoridade, medo e responsabilidade por suas escolhas. Além disso, a narrativa de Pilatos chega ao leitor por mais de uma via, pois Woland começa a contá-la, Ivan a experimenta em sonho e o manuscrito do Mestre dá continuidade a esse mesmo universo. Bulgákov enfraquece, assim, uma separação rígida entre o que seria a realidade principal do romance e aquilo que existiria apenas como ficção produzida por um personagem. Os diferentes planos acabam participando de uma mesma investigação e fazem com que acontecimentos separados por séculos iluminem uns aos outros.

Personagens centrais de O Mestre e Margarita

O Mestre

O Mestre é um escritor que abandonou sua vida anterior para se dedicar a um romance sobre Pôncio Pilatos. Depois de tentar publicá-lo, vê o texto ser rejeitado e atacado pela imprensa literária, experiência que contribui para seu colapso e para seu afastamento do mundo. Quando conhece Ivan Bezdomny em uma clínica psiquiátrica, já desistiu inclusive do próprio nome. Produzir uma obra não significa encontrar leitores ou obter reconhecimento, sobretudo quando sua circulação depende de instituições capazes de recusá-la. O personagem guarda evidentes pontos de contato com os conflitos profissionais vividos por Bulgákov. Sua função no livro permite que o romance examine o que pode acontecer com um escritor quando a rejeição de sua obra passa a atingir também sua confiança na própria criação. 

Margarita

Margarita entra no romance como a mulher que ama o Mestre e sofre com seu desaparecimento, mas sua importância cresce quando decide deixar de esperar. Ao receber de Azazello a possibilidade de entrar no mundo sobrenatural de Woland, ela aceita uma transformação que lhe oferece meios para procurar o Mestre e rompe com a existência confortável, porém insatisfatória, que levava até então. A experiência como bruxa e sua participação no universo de Woland revelam uma personagem capaz de tomar decisões arriscadas e de usar a liberdade recém-conquistada segundo seus próprios objetivos. Sua compaixão por outras pessoas também mostra que suas ações não se reduzem à devoção amorosa pelo Mestre. Margarita é uma das principais forças de iniciativa dentro da narrativa. 

Woland

Woland é o misterioso estrangeiro que aparece em Moscou apresentando-se como professor e desencadeia a sucessão de acontecimentos sobrenaturais que desorganiza a cidade. Sua identidade está ligada a Satanás, mas Bulgákov não o constrói como um agente do mal em sentido convencional. Woland observa, testa e pune personagens cujas fraquezas já existiam antes de sua chegada. Ao mesmo tempo, ele pode favorecer personagens que não se enquadram entre seus alvos. Essa ambiguidade é essencial para sua função no romance. Em vez de introduzir a corrupção em Moscou, Woland cria circunstâncias que permitem enxergá-la com maior clareza. 

Ivan Bezdomny 

Ivan Nikoláievitch Ponyriov, conhecido pelo pseudônimo Bezdomny, começa o romance como um jovem poeta integrado ao ambiente literário oficial de Moscou. Sua primeira aparição ocorre durante uma conversa com Berlioz sobre um poema antirreligioso que havia escrito. O encontro com Woland e os acontecimentos que se seguem destroem a segurança com que compreendia o mundo. Sua tentativa de explicar o que testemunhou o leva a uma clínica psiquiátrica, onde conhece o Mestre. A partir daí, Ivan passa por uma transformação intelectual e começa a questionar as explicações que antes aceitava sem dificuldade. Sua presença no início e no fim do romance ajuda a medir o impacto duradouro dos acontecimentos narrados. 

Pôncio Pilatos

Como procurador romano da Judeia, Pilatos possui autoridade para decidir o destino de Yeshua Ha-Notsri e percebe, durante o interrogatório, que o homem diante dele não representa o perigo que justificaria sua condenação. O problema surge quando essa percepção entra em conflito com as consequências políticas de sua decisão. Pilatos tem poder, mas teme exercê-lo contra as expectativas do sistema ao qual pertence. Sua trajetória transforma o episódio bíblico recriado por Bulgákov em uma investigação sobre responsabilidade. Reconhecer o que parece justo não basta quando falta disposição para agir de acordo com essa convicção. É por esse conflito entre consciência e medo que Pilatos se torna uma das figuras mais importantes de O Mestre e Margarita, ligando o núcleo de Yershalaim às questões morais presentes também na Moscou do romance.

Algumas interpretações de O Mestre e Margarita

Uma sátira da sociedade soviética

A Moscou do romance é marcada pela disputa por vantagens concretas. Apartamentos são desejados e cargos conferem acesso a privilégios; escritores dependem de organizações que regulam sua atividade, enquanto funcionários procuram preservar sua posição. Woland e sua comitiva entram nesse ambiente produzindo situações absurdas que expõem tais comportamentos. No Teatro de Variedades, por exemplo, o espetáculo sobrenatural explora o interesse da plateia por dinheiro e bens de consumo. Em outras passagens, a desordem provocada pela comitiva revela como as personagens reagem diante da possibilidade de obter benefícios ou escapar de responsabilidades. A sátira funciona porque o sobrenatural exagera mecanismos que já pertenciam à vida social representada por Bulgákov.

Essa dimensão ganha peso diante das próprias condições em que Bulgákov escreveu. Durante a década de 1930, ele já não conseguia publicar sua ficção original, e O Mestre e Margarita só chegou ao público mais de vinte e cinco anos depois de sua morte. A primeira edição soviética apareceu na revista Moskva, em 1966 e 1967, com numerosos cortes impostos ao texto. A história do livro oferece um exemplo concreto das limitações à circulação literária que aparecem ficcionalizadas no destino do Mestre. Ainda assim, a sátira política não explica sozinha o romance.

Uma reflexão sobre fé e transcendência

A dimensão religiosa do romance é construída de maneira nada convencional. Yeshua Ha-Notsri corresponde à figura de Jesus, mas Bulgákov não realiza simplesmente uma adaptação dos Evangelhos. Nos capítulos de Yershalaim, Yeshua aparece como um homem submetido à autoridade de Pilatos, e seu encontro com o procurador coloca em primeiro plano questões de verdade, consciência e responsabilidade. Ao mesmo tempo, o romance não permanece limitado a uma interpretação secular dessa figura, pois à medida que os diferentes planos narrativos se aproximam, Yeshua adquire uma função que ultrapassa o mundo histórico narrado pelo Mestre. Essa ambiguidade impede que O Mestre e Margarita seja convertido em uma afirmação religiosa de caráter doutrinário.

Woland torna essa discussão ainda mais complexa. Embora seja identificado com Satanás, ele não funciona simplesmente como o adversário de uma força divina. Ele pune certos personagens, auxilia outros e participa de acontecimentos ligados ao destino final do Mestre, de Margarita e de Pilatos. O romance cria um universo no qual justiça, punição e misericórdia nem sempre pertencem a campos claramente separados. A presença simultânea de Yeshua e Woland permite discutir o bem e o mal sem reduzi-los a personagens que representam polos morais opostos. 

O escritor diante de sua própria obra

O Mestre e Margarita é, dentre outras coisas, um romance sobre o destino da criação literária. O Mestre dedica sua vida a escrever sobre Pôncio Pilatos, tenta levar o texto ao público e encontra rejeição. O ataque à obra acaba afetando sua relação com aquilo que produziu, até o momento em que procura destruí-la. O episódio coloca lado a lado duas formas de vulnerabilidade. Um escritor perde a confiança no próprio trabalho e um manuscrito é impedido de circular por instituições que controlam sua publicação. A literatura depende, nesse sentido, tanto da persistência de quem escreve quanto das condições que permitem que uma obra encontre leitores.

É nesse contexto que a frase “manuscritos não queimam” se torna um dos símbolos centrais do livro. Ela não precisa ser entendida literalmente como a afirmação de que toda obra sobreviverá às chamas. No romance, a ideia aponta para a dificuldade de apagar completamente aquilo que foi criado e para a possibilidade de uma obra ultrapassar a derrota de seu autor. Bulgákov destruiu uma versão inicial do romance, voltou a escrevê-lo e morreu sem vê-lo publicado, mas o manuscrito foi preservado até que pudesse finalmente chegar aos leitores. A criação de uma obra literária e a sua permanência deixam de ser apenas temas da história do Mestre e passam a fazer parte também da história material do livro que temos diante de nós.

Por que ler O Mestre e Margarita hoje?

O Mestre e Margarita nasceu de uma experiência histórica muito específica. Bulgákov escreveu o romance enquanto enfrentava restrições para publicar e trabalhar como escritor na União Soviética e a obra só começou a chegar ao público mais de vinte e cinco anos depois de sua morte. Ainda assim, os conflitos que organiza não dependem apenas daquele contexto. Pilatos sabe que determinada decisão é injusta, mas teme as consequências de agir contra o poder; o Mestre precisa lidar com a rejeição de uma obra na qual investiu sua vida; Margarita escolhe abandonar a segurança para agir em favor de quem ama. Em situações muito diferentes, os personagens enfrentam perguntas que permanecem reconhecíveis a todos nós, principalmente esta: teremos a coragem de dizer a verdade, mesmo quando isso pode significar a nossa ruína? 

Há também uma razão mais imediata e, digamos, mais literária, para lê-lo. O Mestre e Margarita ainda é um livro difícil de prever. A união de narrativas de tons tão diferentes impede que o romance se acomode durante muito tempo em um único gênero ou tom. Mesmo hoje em dia, mesmo depois de tantas inovações narrativas que nos trouxe o século XX, essa característica continua sendo uma singularidade. O leitor em O Mestre e Margarita encontrará uma das vozes mais ímpares da literatura russa. 

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