Leandro Costa 1
Quando Adélia Prado estreou na poesia com Bagagem, ela já era uma escritora totalmente madura. Alguém que, de modo explícito, só estreou em livro depois de ter dominado os seus instrumentos expressivos.
A publicação do primeiro livro de Adélia não revelava apenas uma escritora que atingira um alto nível de excelência em sua língua — e no gênero poético —, revelava também um novo caminho para a nossa poesia, e particularmente para as mulheres: de um lado, ela mostrava como uma personalidade literária forte era capaz de superar os dilemas expressivos deixados pela herança modernista (que alguns já acreditavam estar exaurida); de outro lado, a escritora mineira inaugurava um novo “modo poético”, uma nova voz literária cuja originalidade não se definia apenas pelo estilo particular conquistado, mas por sua própria condição dentro da realidade. Nesse sentido, quem definiu muito bem a situação de Adélia Prado dentro da nossa poesia foi o poeta e crítico Ivan Junqueira:
A partir de Bagagem (1975) e de O coração disparado (1977), nossas poetisas renunciaram aos arquétipos “masculinos” da fala e da linguagem, assumindo-se como tais ideológica e socialmente e adquirindo uma postura que as diferencia de suas predecessoras. Trata-se, como se vê, de um fenômeno de aguda e irreversível conscientização antes ontológica do que propriamente doutrinária. Pretendemos com isso dizer que essa mulher, cônscia às entranhas de que o é, passa a aceitar-se antes como feminina do que como feminista.2
Essa entranhada consciência de ser mulher perpassa toda a obra de Adélia e, como menciona Ivan Junqueira, transborda para as poetisas que foram influenciadas por ela. Mas o que é mais interessante é que ela já está presente — e de forma completa e extremamente incisiva — desde esse primeiro livro. Ela pode ser encontrada no primeiro texto deste livro, “Com licença poética”, o qual, por isso mesmo, além de ser a porta de entrada de uma das obras mais belas e singulares da nossa literatura, também se transforma, por causa disso, na inauguração de uma nova linguagem.
Adélia e Drummond
Antes de tudo, leiamos o poema completo:
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.3
Para além das conquistas formais do texto — o uso singularíssimo do verso livre, o trabalho com o ritmo, a estrutura do poema, o seu encadeamento — e de seus significados específicos, há o diálogo explícito com o “Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade, também o primeiro poema do primeiro livro do poeta itabirano.
Em uma análise de “No meio do caminho”, mostrei como o poema de Drummond estabelecia um diálogo explícito com outros textos que o precederam, e como esse diálogo contribuía para a ampliação dos seus significados. No caso de “Com licença poética”, o conhecimento do “Poema de sete faces” não apenas amplia o sentido do poema de Adélia, mas é fundamental para a sua compreensão.
Em mais de uma ocasião, Adélia já declarou que os seus autores favoritos são Carlos Drummond, Guimarães Rosa e Clarice Lispector — sintomaticamente, três autores modernistas. Lendo os poemas de Adélia, é possível perceber como se dá a influência de cada um desses autores em sua obra.
No caso específico de Drummond, a poetisa mineira chegou a dizer que ele foi o responsável por lhe abrir um horizonte completamente novo no que diz respeito à poesia. Até a descoberta de Drummond, a concepção que Adélia tinha de poesia estava circunscrita à visão mais difundida pelos manuais escolares, os quais, até a década de 50, ainda privilegiavam estilos de época como o Romantismo, o Simbolismo e o Parnasianismo. Em experiência parecida com a relatada por João Cabral de Melo Neto, Adélia diz que, mais do que uma nova concepção de poesia — a qual, logicamente, também fora adquirida pela leitura de outros poetas modernistas —, a poesia de Drummond lhe fez perceber que ela também poderia escrever poemas dentro de uma linguagem alinhada à sensibilidade contemporânea. E não se trata de mera influência, pois, a partir das inovações absorvidas dos três autores citados, Adélia chegou à criação de um estilo próprio. Na famosa classificação de Ezra Pound, ela seria incluída na categoria dos “Inventores”, a daqueles “escritores que descobriram um novo processo, ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo”.
Além de Drummond
E no que consiste esse novo processo? Vimos que ele está diretamente relacionado à sua condição de mulher dentro do mundo. Ele implica na criação de uma linguagem essencial e inconfundivelmente feminina. Basta lembrarmos de um verso paradigmático do universo adeliano, presente no poema “Linhagem” (de O coração disparado): “Minha árvore ginecológica/ me transmite fidalguias”4. É uma escolha lexical que só poderia ser feita por uma mulher. E mais do que isso: é um emprego lúdico do léxico que confere uma nobreza à condição de ser mulher.
E é a partir dessa visão e dessa condição essencialmente femininas que ela poderá se apropriar do texto drummondiano, transfigurando-o conforme as suas próprias necessidades expressivas. Aí, mais do que demonstrar a consciência de que faz parte de uma “linhagem” (neste caso, já despida dos “arquétipos masculinos da fala”), o que impressiona já no primeiro poema do primeiro livro é a consciência de se estar “inaugurando linhagens”.
É muito provável que o leitor já conheça o poema de Drummond ao qual o texto de “Com licença poética se refere”, mas vou reproduzi-lo aqui para facilitar a comparação:
Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.5
Ao se apropriar do texto drummondiano e dar o título de “Com licença poética” ao seu poema, Adélia está obviamente prestando uma homenagem ao poeta que ampliou o seu horizonte poético (e, mais do que isso, que a apadrinhou dentro do sistema literário). No entanto, quando comparamos os dois poemas, percebemos que ela está subvertendo o discurso do texto de Drummond, pois é visível que o seu poema apresenta uma postura muito diferente frente à vida.
A visão sombria
O eu-lírico do primeiro poema de Drummond (o qual, sintomaticamente, tem o nome de Carlos), condenado por uma espécie de maldição (a de “ser gauche na vida”), apresenta uma visão amarga e irônica da vida. Esta será uma visão recorrente na poesia drummondiana: a do desconcerto do mundo; do desconforto de se estar no mundo; a descrição de um vazio existencial que não pode ser aplacado.
As estrofes seguintes aprofundam o sentimento de solidão e de incomunicabilidade desse eu-lírico; sentimento que é acentuado pela paisagem urbana, pela multidão de outros solitários, pela vertigem do movimento, pelos desejos desenfreados e injustificados da carne — mas sobretudo pelo sentimento de abandono, pela ideia de que Deus abandonou o mundo.
Aí, além da novidade linguística, o “Poema de sete faces” é paradigmático do pathos do homem moderno que sofre da “nostalgia do absoluto” — todas as tentativas frustradas de preencher o seu vazio existencial são representadas pelo jogo de palavras que viria a ser uma das estrofes mais conhecidas da nossa poesia: “Mundo mundo vasto mundo / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima não seria uma solução. / Mundo mundo vasto mundo / mais vasto é meu coração”.
Toda a aparência de harmonia, de progresso, de modernidade, de civilização, de tudo o que o homem conquistou até o presente, tudo isso não se afigura como harmonia de verdade; é apenas uma ilusão que encobre a profunda angústia que existe no coração do homem sem Deus (e aqui não falo a partir de uma perspectiva religiosa, da qual compartilho, mas da perspectiva agnóstica do próprio Drummond, pois, independentemente de ele ter sido um homem sem fé, foi um dos escritores que melhor souberam descrever o mundo desencantado da modernidade).
A visão luminosa
Além de ser essencialmente feminino, o eu-lírico de “Com licença poética” apresenta uma visão de mundo completamente diferente do eu-lírico do “Poema de sete faces”.
Consideremos, por exemplo, a figura do anjo. O anjo de Drummond é “torto”, “vive na sombra” e lhe amaldiçoa. O anjo de Adélia é “esbelto”, “toca trombeta” e, embora delegue ao eu-lírico um “cargo pesado”, não deixa de ser esperançoso.
Depois, há diferentes modos de se lidar com as expectativas. Toda aquela descrição dos desejos desencontrados e da incomunicabilidade presente no poema de Drummond, no poema de Adélia se transforma em uma visão mais pedestre e menos trágica da vida, até culminar na ideia de que “dor não é amargura”.
Isso acontece porque o eu-lírico de Adélia vê a sua própria condição para além da sua percepção imediata. O eu-lírico do “Poema de sete faces” condicionava o mundo à visão do instante vivido, por isso o poema culmina em um sentimentalismo exacerbado (“essa lua/ esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo”).
O eu-lírico de Adélia, por sua vez, vê a sua condição integral de ser humano — dentro do tempo e dentro do cosmos. Ele diz: “inauguro linhagens, fundo reinos”. Na continuidade da obra adeliana, veríamos que esses reinos podem ser absolutamente triviais (o reino da casa, da vida familiar, da “Dona doida”), mas é a partir desse enraizamento no trivial que surge uma maneira luminosa de olhar para o ser humano.
Na última estrofe do poema, há mesmo um ataque ao eu-lírico drummondiano (o “gauche” transforma-se em “coxo”, e ser um gauche é “maldição para homem”). Mas esse “ataque” não acontece apenas pelo discurso, mas também pela forma do poema. No “Poema de sete faces”, lemos que nem a poesia é capaz de aplacar o vazio existencial (“seria uma rima/ não seria uma solução”); no poema de Adélia, a sua visão luminosa do mundo é concluída justamente com uma rima (de resto, recurso pouco empregado por Adélia), ainda que toante e quase imperceptível, entre “avô” e “sou”:
Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.
Aí, ela está atrelando a condição feminina à ideia da esperança. Mas não é apenas isso. Ela está imprimindo a sua personalidade ao texto. Eis a grandiosidade desse poema: além de expressar todo o reconhecimento devido ao escritor que mais lhe influenciou, Adélia também está demonstrando como é possível transformar essa influência numa linguagem própria.
Mais do que transfigurar o inadequado eu-lírico drummondiano com o seu eu-lírico “desdobrável”, aí, desde o seu primeiro texto, Adélia nos legava uma lição literária fundamental: a escrita é social, ideológica, discursiva, e pode estar atrelada a objetivos não necessariamente existenciais, mas ela só é capaz de produzir epifanias quando nasce de uma necessidade vital de revelar a beleza do mundo (ainda que essa revelação ocorra por meio do grotesco).
Ao entrevistar a autora em 1999, o poeta Bruno Tolentino disse que a escrita dela era animada pelo “movimento transfigurador do espírito”. Como acontece, em certa medida, no texto de “Com licença poética” (e como aconteceria em inúmeros de seus textos metalinguísticos), Adélia justificou a sua necessidade de escrever (e a necessidade humana de arte, como um todo) com a seguinte reflexão:
“A vida toda eu vi isso, ou aquilo, ou aquilo outro, como realmente é. E era bonito mesmo, mas não adiantava eu falar ‘é bonito’. Era a voz do poema que tinha de dizer isso, era essa força que não é minha, mas da realidade que o poema ‘pega’ ou não aconteceu, não chegou a ter voz… O poema vai à coisa natural e a transfigura para devolver essa beleza ao natural. A rosa não é a imitação da rosa. Mas tampouco a própria rosa é mais a mesma depois do poema”.6
Da mesma forma, a literatura brasileira também foi transfigurada pela sua “voz”. Nossa poesia nunca mais foi a mesma depois de Adélia Prado, pois, por causa da sua particular imitação da rosa, ela foi tomada por uma atemporal e imemorável “vontade de alegria”.
- Leandro Costa é escritor e crítico de cinema. Publicou o volume de poemas Paisagem Absoluta (Mondrongo, 2020) e colabora com algumas publicações na internet. Atualmente, faz parte do time de curadoria do streaming Lumine TV e publica seus ensaios nos Pontos de Vista, sua página no Substack. ↩︎
- Ivan Junqueira. “A presença poética feminina”. In: Ensaios Escolhidos. Vol. 1. São Paulo: A girafa, 2005. p. 484. ↩︎
- Adélia Prado. “Com licença poética”. In: Poesia Reunida. Rio de Janeiro: Record, 2015. p. 17. ↩︎
- Adélia Prado. “Linhagem”. In: Poesia Reunida. Rio de Janeiro: Record, 2015. p. 107. ↩︎
- Carlos Drummond de Andrade. “Poema de sete faces”. In: Alguma poesia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 15. ↩︎
- Adélia Prado em entrevista a Bruno Tolentino. “Epifanias de um coração disparado”. In: BRAVO. Ano 2, Nº 19, Abril de 1999. p. 62-63. ↩︎