Leandro Costa 1
Desde suas origens, o cinema estabeleceu um íntimo diálogo com a literatura. Na primeira década do séc. XX, durante a chamada era “silenciosa” do cinema, já havia adaptações de livros como A divina comédia, Dom Quixote e Os miseráveis.
No entanto, a arte do cinema ainda não estava bem desenvolvida. Assim, o diálogo com a literatura acontecia de uma maneira pouco expressiva: na maioria das vezes, as produções cinematográficas derivadas dos clássicos eram meras ilustrações animadas do que era dito nos livros. Embora isso acontecesse, em certa medida, por causa de limitações técnicas, esse é um defeito que persiste até hoje em muitas adaptações — como, por exemplo, nas inúmeras versões de Shakespeare, de Jane Austen e das Irmãs Brontë realizadas continuamente pela rede BBC. Nessas adaptações, costuma-se confundir ilustração com expressão e, na maioria das vezes, o “produto” final acaba sendo algo estéril e sem autonomia.
Ilustração e expressão
Essa é uma questão fundamental porque, embora o cinema e a literatura tenham um valor informativo, o que os distingue enquanto arte é um modo específico de usar os elementos expressivos próprios de cada linguagem. No caso da literatura, as palavras propriamente ditas, e recursos como as figuras de linguagem, as estruturas fornecidas pelos gêneros, o ritmo, a construção das personagens, os símbolos, etc.
No caso do cinema, as imagens, os sons, a fotografia, a perspectiva adotada, a montagem, a duração dos planos, o cenário, a interpretação dos atores; e também elementos comuns à ficção como um todo, como a narrativa, o texto, as convenções dos gêneros, etc.
Pensando nessa oposição entre ilustração e expressão, uma boa síntese da relação entre o artista, suas motivações e seus meios expressivos está nas seguintes palavras de Federico Fellini:
“O que importa é o modo como dizemos as coisas. O que distingue a arte é o artesanato, a habilidade. Pode chamar isso de estilo, se quiser. Ou seja: o estilo é o que unifica a memória, a ideologia, o sentimento, os pressentimentos, a nostalgia ao modo como expressamos tudo isso. Portanto, o mais importante não é o que dizemos, mas o modo como fazemos isso.”
É óbvio que esse postulado não deve nos levar a um esteticismo extremo. Quando Fellini diz que “o mais importante” é o modo como as coisas são ditas, isso não implica que as coisas que são ditas não são importantes. Significa apenas que elas não são importantes em si; que elas necessitam de uma articulação — verbal, visual, musical, etc. — para atingirem a sua máxima expressividade possível.
E, para deixar evidente que essa não é uma posição esteticista, reivindico o grande exemplo de Roberto Rossellini, aquele que é considerado o pai do cinema moderno, que revolucionou a linguagem da arte que praticava, e que declarou que essa “revolução” foi, antes de tudo, uma atitude moral. Ou seja, a forma é indissociável da moralidade — ou, como dizia Godard, “o lugar onde você posiciona a câmera é uma questão de moral” —, pois é a forma que dá vida ao que porventura é dito em uma obra de arte.
O que distingue uma boa adaptação?
No atual momento da história, considerando o desenvolvimento do cinema e a sua relação com a literatura, é possível destacar vários exemplos de boas adaptações cinematográficas de livros clássicos; obviamente, há uma infinidade de filmes medianos, ruins e péssimos. Mas também há filmes que podem ser considerados bons, outros grandiosos e, às vezes, até mesmo algumas obras-primas.
Pensando nisso, elaborei uma lista com aquelas que considero as melhores adaptações cinematográficas de alguns dos clássicos publicados pelo CLC. Mas, antes dos comentários a respeito dos filmes, é importante esclarecer algumas questões:
1. A melhor adaptação de um livro não precisa ser a mais “fiel”. Muitas vezes, a melhor adaptação de um clássico é uma obra indireta, que empresta apenas alguns elementos do livro — ou o que podemos chamar de “espírito” de uma obra. É preciso levar em conta o fato de que o cinema e a literatura são linguagens artísticas distintas, com características muito peculiares, e que a mera transposição de cenas e diálogos da linguagem literária para a linguagem cinematográfica não constitui uma obra de arte valiosa. O que nos leva à segunda questão.
2. A adaptação cinematográfica de um livro clássico precisa ser valiosa em si mesma, precisa conquistar sua autonomia artística. Por exemplo: uma das melhores adaptações de Macbeth para o cinema é Trono Manchado de Sangue, de Akira Kurosawa, filme cujo enredo se passa em um contexto muito diferente do contexto original da peça e cuja estrutura dramática abdica de quase todos os diálogos do texto. No entanto, Kurosawa captou o espírito da peça de Shakespeare de uma forma que poucos cineastas conseguiram, ao ponto de ter levado o crítico Harold Bloom a dizer que é a melhor adaptação cinematográfica já feita de uma obra do bardo inglês.
3. A última questão importante é que, em vez de seguir um consenso canônico, esta é uma lista elaborada a partir das minhas preferências pessoais. E, ainda que elas sejam muito criteriosas, não deixam de ser subjetivas.
Feitas essas considerações, vejamos os filmes (a lista não é hierárquica. Ela segue a ordem cronológica a partir da data original da primeira edição dos livros. Além disso, decidi dividi-la em duas partes para propiciar uma melhor experiência de leitura).
1. As ligações perigosas (1782), de Chordelos de Laclos

Um comentário ligeiramente irônico de um membro aleatório no letterboxd nos dá a dimensão da influência da obra de Chordelos de Laclos no cinema (e eu poderia dizer “na cultura”, visto que o livro é considerado um protorromance moderno, sendo uma das obras que lançaram as bases do gênero): “de quantas adaptações de As ligações perigosas nós precisamos? De quantas forem lançadas”.
O comentário tratava de uma recente adaptação coreana do livro (e é interessante lembrar que tivemos até uma adaptação brasileira em formato de série, em 2016, protagonizada por Selton Mello, Marjorie Estiano e Patrícia Pilar), mas há uma curiosidade no que diz respeito às suas adaptações cinematográficas: as versões de Stephen Frears (com John Malkovich e Glenn Close) e de Milos Forman (com Colin Firth e Annette Bening) foram lançadas quase simultaneamente: uma em 1987; a outra em 1988. Ou seja: mesmo relegando previamente o filme ao fracasso comercial (que foi, de fato, o que veio a acontecer), os produtores de Valmont, o filme de 1988, insistiram em lançá-lo. No que diz respeito ao julgamento dos filmes, as duas versões são competentes. Não penso que sejam “grandes filmes”, mas podem ser considerados bons. Uma descrição justa seria a de que são bons filmes com alguns grandes momentos.
O filme de Frears, homônimo ao livro, tem uma construção mais teatral e não toma muitas liberdades no enredo. Frears e Christopher Hampton, o roteirista, mantiveram o “castigo final” da Marquesa de Merteuil e do Visconde de Valmont, e apostaram em uma visão menos cínica do funcionamento do mal e do poder no mundo. Eles expressam a ideia de que o bem e a inocência ainda têm o seu valor, embora a construção das duas personagens principais — por parte de Malkovich e Close — seja perfeitamente diabólica. Os dois são insuperáveis.
Milos Formam e Jean-Claude Carrière, por sua vez, constroem em Valmont: uma história de seduções um universo engolfado no cinismo. Um pouco por causa da escolha dos atores (Firth e Bening), Merteuil e Valmont não têm no filme de Forman a mesma força diabólica que Malkovich e Close apresentam no filme de Frears. E o modo como Carrière escreveu as cenas é ligeiramente mais intelectual e menos dramático, o que faz com que o filme seja menos empolgante. Carrière também toma algumas liberdades no que diz respeito ao enredo. Discípulo de Buñuel, o roteirista francês aposta na total amoralidade e decide poupar as suas personagens dos “castigos” sofridos na trama original.
Merece menção também a versão de Roger Krumble, Segundas Intenções, de 1999, com Sarah Michelle Gellar, Ryan Phillipe e Reese Whiterspoon. Embora o filme não esconda o seu tom caricato, o modo como Krumble conseguiu adaptar os conflitos de Laclos para a geração MTV é excepcional, com muitos momentos hilários e alguns realmente belos.
2. Fausto (1790), de Goethe

Com a exceção de algumas adaptações teatrais filmadas, há pouquíssimas adaptações propriamente cinematográficas do grande poema de Goethe. O que é algo totalmente compreensível, devido à densidade do texto.
Há uma adaptação experimental que é até competente, realizada por Aleksandr Sokúrov em 2009 — premiada, inclusive, com o Leão de Ouro no festival de Veneza — mas, embora tenha algumas qualidades, é um filme irregular que não está nem à altura das melhores produções de seu diretor, muito menos da grande obra de Goethe.
Curiosamente, a melhor adaptação do Fausto foi feita ainda na era silenciosa do cinema, pelo alemão F. W. Murnau, em 1926.
Como adaptar um poema de mais de dez mil versos em um filme “mudo”? Eis o dilema enfrentado por Murnau. O seu grande trunfo está na criação de imagens que funcionam como síntese dos significados presentes no poema.
Analisando as primeiras imagens do filme, por exemplo, Lotte Eisner escreveu: “O início deste filme apresenta o que o claro-escuro alemão criou de mais notável, de mais arrebatador: a densidade caótica das primeiras imagens, aquela luz que nasce das névoas, aqueles raios que cortam o ar opaco, aquela fuga orquestrada visualmente como que por órgãos que ressoam em toda a extensão do céu nos roubam o fôlego.” 2
Assim, embora o filme de Murnau tenha sido produzido em um contexto de grandes limitações técnicas, seu poder de síntese fez com que ele transcendesse a mera ilustração da obra de Goethe e se transformasse numa obra expressiva em si mesma. Como vários outros grandes filmes do cinema clássico alemão, o Fausto de Murnau foi uma obra profética, pois, dentre outros fatores, foram elementos como a sede de poder, a idolatria da tecnologia e a crença no valor positivo do progresso desenfreado que permitiram a criação do Terceiro Reich.
3. Oliver Twist (1837-1839), de Charles Dickens

Dickens é um dos autores mais adaptados da história do cinema. Oliver Twist, por exemplo, conta com dezenas de adaptações. Obviamente, não cheguei a assistir nem metade delas. Mas gosto das três adaptações que conheço, nesta ordem: a de David Lean, de 1948; o musical de Lionel Bart dirigido por Carol Reed, de 1968; e a versão de Roman Polanski, de 2005.
A adaptação de David Lean aposta em elementos expressionistas e na fidelidade à trama original. Além das boas atuações, da bela direção de arte e da ótima fotografia em preto e branco, a força do filme está no equilíbrio entre um tom fabular, típico de Dickens, e um realismo mais cru e violento — principalmente no final da história. É um equilíbrio difícil de ser conquistado. Por exemplo, a versão de Polanksi é quase impecável no aspecto visual, com imagens de extrema beleza, mas a estrutura da trama não é tão equilibrada quanto no filme de Lean. O espectador fica indeciso: não sabe exatamente se está vendo um filme “para crianças” ou um thriller mais impiedoso. De toda forma, este é um dos bons filmes da última parte da filmografia de Polanski.
Já a versão de Reed, de 1968, tem a peculiaridade de ser um musical. E um musical europeu, que é mais estranho para a nossa sensibilidade do que os musicais americanos. Ainda assim, para quem gosta do gênero, é um grande filme. E um dos grandes filmes de Reed. Há um belo equilíbrio entre os números adaptados por Bart e o conteúdo propriamente dramático da história. O espectador consegue fazer a transição necessária de tom entre as situações mais “irreais” dos momentos dedicados à música e a tensão criada pelas situações da trama.
4. O morro dos ventos uivantes (1847), de Emily Brontë

O clássico de Emily Brontë também é um dos romances mais adaptados da literatura inglesa, com direito a uma novela brasileira produzida pela extinta TV Excelsior. Inclusive, enquanto escrevo este texto, está em cartaz uma nova (e constrangedora) versão cinematográfica do livro, protagonizada por Margot Robbie e Jacob Elordi.
Das versões mais famosas, nenhuma encarna o que podemos chamar de visceralidade da história original. A adaptação de Wyler, de 1939, explora muito bem os ambientes e é magnificamente fotografada por Greg Tolland, mas as caracterizações de Catherine e Hathcliffe (vividos, respectivamente, por Merle Oberion e Lawrence Olivier) sofrem de certa teatralidade que pode parecer estranha à sensibilidade dos públicos atuais. A versão de Buñuel, Abismos de Pasión, de 1954, tem o mérito de assumir a violência intrínseca das personagens: é um filme conciso e poderoso, mas a caracterização das personagens, construída na clave do melodrama mexicano, também pode soar estranha à sensibilidade atual.
A adaptação de 1992, com Juliete Binoche e Ralph Phiennes, embora também explore a parte visual de modo exemplar, é puramente ilustrativa e acadêmica — e o mesmo pode ser dito da adaptação de Andrea Arnold, de 2011. Há uma minissérie de 2009, na qual Hathcliff é interpretado por Tom Hardy. O Hathcliff de Hardy tem algo da visceralidade que falta às outras versões citadas, mas, em termos de expressão, a minissérie como um todo não chega a conquistar uma autonomia expressiva.
Curiosamente, as melhores adaptações de O morro dos ventos uivantes são aquelas que, à maneira de Buñuel, tiraram a história de seu contexto original e a situaram em ambientações diferentes. São elas: a versão francesa de Jacques Rivette, Hurlevent, de 1985, situada na França dos anos 30. E a versão japonesa de Yoshishige Yoshida, de 1988, situada no Japão feudal.
A adaptação japonesa da história de Brontë é um filme austero, artisticamente refinado e emocionalmente violento. Como na citada adaptação de Macbeth feita por Kurosawa, Yoshida aproveita poucos diálogos do livro, mas constrói uma ambientação única. É uma versão mais erótica, mais violenta e mais sombria da história. Yoshida se concentra no ódio, na imposição da força, no horror, em um inescapável sentimento de tragédia que toma conta de todos os momentos do filme.
A versão de Rivette, por sua vez, adapta apenas uma parte da história (até a morte de Catharine), mas é a adaptação mais bonita do livro. É um filme cujo valor vai muito além do enredo, pois Rivette é um diretor que demonstra grande respeito pelo seu universo de ficção: cada gesto, cada cenário, cada textura de um ambiente são valorizados com grande densidade por seu olhar. Assim, em vez de apenas ilustrar a história do livro, ele cria um universo fictício autônomo, ao ponto de podermos dizer que existe o Morro dos ventos uivantes de Brontë e também existe o de Rivette.
- Leandro Costa é escritor e crítico de cinema. Publicou o volume de poemas Paisagem Absoluta (Mondrongo, 2020) e colabora com algumas publicações na internet. Atualmente, faz parte do time de curadoria do streaming Lumine TV e publica seus ensaios nos Pontos de Vista, sua página no Substack. ↩︎
- Lotte H. Eisner, A tela demoníaca, trad. Lúcia Nagib. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1985, p. 197. ↩︎